Paralelos



Parece um despropósito a ideia de um “choque de importância” entre a seleção espanhola e o Real Madrid, neste caso de auto-sabotagem que resultou na demissão do técnico Julen Lopetegui e se apropriou do noticiário na véspera da abertura da Copa do Mundo. A noção de que um clube é “maior” do que sua seleção nacional, além de fantasiosa, é própria de quem insiste em enxergar o futebol como uma opção religiosa e os clubes como igrejas que pregam a intolerância. Uma visão algo imatura, pois esse antagonismo simplesmente não existe.

Em lugares como o Brasil, onde o principal campeonato é disputado até um dia antes da Copa começar, a má gestão e os defeitos do calendário estimulam o conflito – ao menos na visão do torcedor – seleção x clube, devido aos prejuízos causados pelas convocações e o distanciamento entre a confederação e o público. Mas nos países em que esse problema não se apresenta (embora a Federação Espanhola seja siamesa da CBF), o futebol de clubes e o de seleções são organismos paralelos, em contextos diferentes, cada um com seus valores e símbolos. Não existe motivo para que se faça qualquer tipo de escolha por relevância entre um e outro.

Mesmo ao torcedor, não se trata de preferir ver um título do time ou do país, ou quais foram os sentimentos que essas experiências geraram. Nada disso está sob o controle de quem torce, de modo que a preferência é apenas um discurso. E o próprio jogo de futebol se encarrega de mostrar que, até onde o dito conflito existe, opções não são feitas sob a ótica da grandeza. Não há muitos exemplos de rejeição à oportunidade de jogar pela seleção por motivos profissionais. Quando acontece, são decisões pessoais, íntimas. Para quem faz o futebol, a conjunção é “e”, não “ou”: existe o clube e a seleção. Entre técnicos brasileiros, entende-se o auge como dirigir o time nacional em uma Copa.

Julen Lopetegui não preferiu o Real Madrid à Copa do Mundo. Não há sentido nisso. Num movimento que pode ser considerado antiético, pela ocasião e tudo que a cerca, ele aceitou uma oferta profissional para depois do Mundial. O problema foi a condução do processo por todas as partes, dada a reunião de muitos elementos sensíveis. Excluídos esses aspectos, não foi uma decisão diferente da que técnicos italianos e argentinos têm tomado, sempre considerando as características específicas de cada caso. Também há exemplos no sentido oposto, como o de Joachim Low, que há alguns dias descartou a possibilidade de ser técnico do mesmo Real Madrid para seguir comandando a Alemanha.



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