Uma questão



Como ensaio final, as sensações não poderiam ser melhores. É difícil encontrar um jogador que não tenha feito boa atuação contra a Áustria, e fácil escolher aqueles que foram muito bem. Como equipe, a seleção brasileira – sempre observando o nível de exigência oferecido pelo adversário – apresentou tudo o que se gostaria de ver a uma semana da estreia na Copa do Mundo, o que não deve ser lido com tendência ao exagero, mas precisa ser destacado como fotografia do momento. Houve sensível melhora em relação ao jogo contra a Croácia, embora o Brasil tenha sido menos pressionado em seu campo, ponto em que reside, talvez, a principal questão em relação à formação que parece estar pronta para enfrentar a Suíça.

Philippe Coutinho, extremamente talentoso e inteligente, foi um dos destaques em Viena. Atuando como interior, teve influência na construção em jogo curto, eficiência como passador, provocou descontrole no sistema defensivo austríaco, finalizou e marcou um gol. Coutinho sugeriu um acerto de meio-campo/ataque que tornou o time mais atraente e perigoso, a ponto de ficar evidente que a escalação que iniciou o amistoso será repetida no próximo domingo. Especialmente no segundo tempo, quando a Áustria cedeu mais espaço, a reunião de jogadores ofensivos da seleção brasileira deixou ótimas impressões. Aí está, precisamente, a questão: como Coutinho se comportará contra oponentes mais físicos e capazes de pressionar o início de movimentos do Brasil? Que nível de risco haverá, por exemplo, diante de algo como Kante-Pogba-Matuidi-Griezmann-Mbappé, aptos a transformar um desarme em gol em um piscar de olhos?

Em entrevista, Tite declarou que Coutinho “pode jogar ali”, citando “compensações” necessárias para que a ideia funcione. Entre elas está um acréscimo de trabalho para Casemiro (um colosso, ontem, em todas as faces do jogo) e Paulinho (muito bem à direita, junto com Willian, oferecendo a saída da bola por aquele lado). Por características físicas, Coutinho ainda sofre quando marcado com mais peso, o que dificulta seus gestos após receber a bola e gera um alerta quanto à perda da posse em um setor nervoso do campo. Como tudo no futebol, a comissão técnica se debruça sobre uma escolha que traz um balanço de benefícios e desvantagens, motivo pelo qual a utilização do jogador do Barcelona em encontros com equipes que optarão por se defender, como a Áustria, faz total sentido. Quando o adversário for do mesmo tamanho da seleção brasileira, Fernandinho e Renato Augusto poderão contribuir.

Digamos que seja um problema útil. Tite precisa ter um time que consiga abrir defesas congestionadas enquanto evita o contragolpe, e um time que saiba negociar com marcações mais agressivas, protegendo a bola. O elenco da seleção brasileira permite escolhas que abordam essas necessidades, sem que as virtudes coletivas – saída controlada, posse, circulação, aceleração, improviso, finalização – sejam sacrificadas. A sabedoria está em lançar mão das opções adequadas a cada ocasião, muitas vezes dentro de um mesmo jogo. Como se pôde perceber durante as Eliminatórias, o encontro de Coutinho, Willian, Neymar e Gabriel Jesus pode ser devastador, mas não precisa ser acionado em todas as circunstâncias e em todo o tempo.

No mais, Neymar deixou uma pérola deste pré-Copa com o drible de futsal no segundo gol. Crueldade. Como disse Marcelo Bielsa há alguns dias, durante um simpósio sobre futebol no México, “dominar os esquemas de jogo deveria ser necessário porque o drible é a ferramenta que soluciona tudo, mas o problema é que ninguém dribla, com exceção de Messi e Neymar”. Dragovic percebeu da forma mais dolorosa, exposto aos olhos do mundo do futebol, certamente atentos ao que a seleção brasileira poderá fazer nesta Copa.



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