Cabeça



A possibilidade de Loris Karius ter sofrido uma concussão durante a final da Liga dos Campeões é um convite a uma conversa desagradável: faz muito tempo que o futebol trata esse tema com simulação de eficiência, o que, neste caso, pode ser traduzido pela mais absoluta negligência. Estudos e estatísticas exigem que medidas sejam tomadas imediatamente em situações de choque na cabeça, mas o jogo de futebol finge abordar um problema da maior seriedade com uma postura proteladora, em mais uma evidência do atraso que o caracteriza. A resistência a mudanças pode ser apenas uma questão de opinião quando o debate é sobre tecnologia na arbitragem ou a regra do impedimento. A saúde de futebolistas deveria ser prioridade.

O próprio ambiente do jogo desestimula uma discussão necessária. Quando um hospital americano divulgou os resultados dos exames aos quais o goleiro do Liverpool se submeteu, revelando a probabilidade de que a concussão tenha prejudicado suas ações no jogo contra o Real Madrid, as repercussões foram deprimentes. Entre a cogitação de que era uma razão fabricada para explicar duas falhas bizarras em gols do time espanhol e a minimização dos efeitos de uma lesão dessa natureza no desempenho de um jogador, até o futebolista envolvido na ocasião se deixou levar pelo espírito da arquibancada. Sérgio Ramos, cujo cotovelo direito se encontrou com a cabeça de Karius pouco antes do primeiro gol do jogo, ironizou o episódio, ignorando completamente sua gravidade.

A desculpa do futebol para não acessar as concussões da forma apropriada é o conflito entre a regra das substituições e o tempo necessário para o diagnóstico. Um atleta com suspeita de concussão deve passar por um protocolo que dura cerca de doze minutos, para que um especialista determine se ele pode ou não continuar jogando. É um intervalo muito longo para que uma equipe fique desprovida de um jogador, algo ainda mais complicado quando este jogador é o goleiro. Atualmente, usa-se – ao menos em tese – uma versão “light” do protocolo, que leva ao redor de quatro minutos e evidentemente não é suficiente. O futebol finge que age, recusando-se a discutir óbvias soluções. Uma delas é a substituição temporária para casos de choque na cabeça, que evitaria que o time tivesse um jogador a menos durante o tempo do exame. Se o jogador avaliado fosse autorizado a voltar (preferencialmente por um médico independente), a substituição seria revertida.

Mas há outro cenário que, além de resolver o problema que importa, representaria uma mudança ainda mais profunda no próprio jogo: o fim do limite de substituições, com permissão para que jogadores saiam de campo e retornem, como acontece em quase todos os outros esportes coletivos. Neste aspecto, não há nada na natureza do futebol que o diferencie de outras modalidades sob o ponto de vista fisiológico. “Como nos outros esportes, um jogador que é substituído e pode voltar ao jogo precisaria se manter aquecido para evitar o risco de lesões”, diz Irineu Loturco, doutor em Alto Rendimento Esportivo e diretor-técnico do Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo.

As substituições ilimitadas abririam as portas de um novo jogo para dirigentes, treinadores e, claro, para os próprios futebolistas. Da montagem de elencos ao prolongamento de carreiras, equipes poderiam se transformar estrategicamente durante as partidas, com implicações diretas na administração do cansaço e na frequência de lesões. E um caso como o de Karius seria abordado com os critérios adequados para que sua saúde fosse colocada em primeiro lugar, sem prejuízo da capacidade de competição de seu time. Pelo que se pode ler no relatório do hospital, o que aconteceu na final da Liga dos Campeões foi o contrário, em ambos os aspectos.



MaisRecentes

Filme



Continue Lendo

Perversidades



Continue Lendo

Arturito



Continue Lendo