Daniel não está



O velho estereótipo do meio-campista defensivo como representante do jogo mau humorado ainda se faz presente, com a insistência no sentido negativo do termo “volante” como explicação para os defeitos de um time de futebol. O primeiro tempo de Brasil x Croácia ilustrou esse tipo de análise, reforçada pela saída de Fernandinho no intervalo e a melhora da seleção brasileira com o retorno de Neymar. É uma recaída da ideia de que mais jogadores com características ofensivas automaticamente beneficiam uma equipe apenas por estarem ali, uma simplificação que o jogo real não aceita. As dificuldades do time de Tite não se originam na formação do meio de campo com “três volantes”, tampouco a vitória deve ser relacionada à ausência de Fernandinho. A questão é a ausência de Daniel Alves.

Quando o lateral do Paris Saint-Germain se machucou, sua substituição era um problema teórico que precisava ser solucionado, primeiro na convocação, e depois com a introdução de um jogador capaz de manter o modelo com o qual Tite trabalha desde que assumiu. A manutenção da eficiência do modelo é o passo seguinte, tão importante quanto o anterior, como ficou claro no amistoso em Liverpool. A saída de bola da seleção brasileira – prejudicada pela marcação croata, por vezes, bem próxima à área de Alisson – foi feita primordialmente com Marcelo, alterando a maneira como o time se habituou a evoluir ao campo de ataque. O problema foi acentuado pela pouca movimentação dos atacantes de lado, o que teve impacto direto no que se avaliou como “falta de criatividade do meio de campo”. O passe também é feito por quem o recebe.

Fernandinho é um passador talentoso, além de ter excelente noção de posicionamento e contribuir para a robustez que a forma de jogar da seleção exige do setor. Atribuir à presença dele a impressão de um time emperrado é esquecer que a bola também precisa sair pelo lado direito e que uma das tarefas dos jogadores à frente é confundir para oferecer espaço. O que não significa que Danilo tenha jogado mal, como Tite fez questão de dizer em entrevista, salientando seu desempenho defensivo. Usá-lo para sair da defesa é uma questão de comportamento coletivo que recupera o padrão de construção que o time tinha com Daniel, algo fundamental do ponto de vista estratégico, especialmente com Neymar em campo. Essa dinâmica e a decisão sobre como/quando utilizar Philippe Coutinho por dentro são centrais neste período final de preparação para a Copa do Mundo.

O retorno de Neymar obviamente mudou o panorama no ataque, em que se percebeu muito mais mobilidade, principalmente por parte de Willian. A jogada do primeiro gol é explicativa: Willian subiu para articular pela direita, mais próximo ao círculo central, enquanto Coutinho se projetou do outro lado para receber. Quando a bola chegou a Neymar em um contra um com seu marcador, perto da área, o sistema da seleção cumpriu seu papel. O astro se encarregou do resto. Lance pessoal que surpreendeu por causa da longa inatividade, mas que evidencia a relevância de seu repertório. Nas palavras de um futebolista brasileiro, “a seleção joga por um jogador, o que é muito melhor do que jogar por uma bola”.

As alterações posteriores ao gol dificultaram a leitura da atuação, embora deva-se aplaudir o bom lançamento de Casemiro e o recurso de Firmino no 2 x 0. O amistoso pode não ter deixado o sabor mais agradável, mas o ensinamento é muito valioso: é necessário reconstruir a saída da bola pelo lado direito da defesa. Sim, a qualidade dos atacantes da seleção brasileira permite que eles resolvam esse problema na maioria das ocasiões, mas, além de não haver garantias, o ponto que importa é o aperfeiçoamento da maneira de atuar que faz do Brasil um dos candidatos na Rússia. Fernandinho é parte da solução.



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