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No instante em que o Real Madrid alcançou o feito de levantar três ligas dos campeões seguidas, a comissão técnica da seleção brasileira saboreou o alívio de ver Marcelo e Casemiro concluírem a decisão europeia sem nenhum problema aparente. O indício de que os dois últimos titulares se apresentarão (para o almoço de quarta-feira, junto com Firmino) sem preocupações foi a melhor notícia possível, após um jogo em que as lesões de Carvajal e Salah causaram calafrios em espanhóis e egípcios. Finalmente encerrada a temporada – exceto a brasileira, que insiste em trafegar na contramão – , Tite e seus ajudantes podem se concentrar na execução da parte final da preparação para a Copa do Mundo.

Marcelo lidou muito bem com a narrativa de que representa uma debilidade defensiva, um dos temas debatidos no período entre as entrevistas coletivas e o jogo em Kiev. O assunto é antigo. Há um ano, quando Marcelo Bielsa esteve na sede da CBF para uma palestra, disse que Filipe Luís é um defensor muito superior, mas que concorda com a escalação de Marcelo por sua contribuição ao ataque. Contra o Liverpool, o lateral brasileiro se envolveu em dois dos três gols de seu time, além de ter sido importante no trecho inicial do encontro, em que o Madrid precisou baixar a intensidade da tempestade inglesa. A saída de Salah naturalmente descomplicou o trabalho defensivo em seu setor, permitindo que Marcelo atuasse com maior liberdade e tivesse impacto, como é frequente, na outra metade do gramado.

A atuação de Casemiro também foi interessante. Na primeira meia hora, quando o futebol frenético do Liverpool tentava o(s) gol(s) que justifica(m) tamanho gasto de energia em pouco tempo, notar a presença do volante do Real Madrid exigiu atenção específica no trabalho de cobertura e interceptação de passes, uma de suas tarefas. A propósito: o fato de um jogador tão rápido e com notável capacidade de ocupar regiões do campo parecer excluído do jogo é uma das provas de como deve ser difícil se defender da blitz do time de Klopp. Mas não é exagero dizer que, sem o esforço longe das luzes feito por Casemiro, o gol que o Liverpool procurava teria acontecido. Sua relevância no meio de campo da seleção brasileira está diretamente relacionada à imposição física e à habilidade para se concentrar no movimento do oponente enquanto o time tem a posse.

Tite, pessoalmente, deve ter aplaudido a vitória do gigante espanhol por uma questão de ideia de futebol. É pública sua admiração pela maneira como Carlo Ancelotti dirige equipes, influência perceptível no trabalho de Zinedine Zidane, até aqui em uma trajetória formidável a ponto de gerar mais troféus da Champions do que temporadas completas como técnico do Real Madrid. O sistema flexível que confere protagonismo e acredita na capacidade de tomada de decisão de futebolistas talentosos tem áreas em comum com a forma como a seleção brasileira joga. Não por acaso, Marcelo e Casemiro desempenham papeis instrumentais em ambas as equipes.

ENFERMOS

A noite de Karius em Kiev reflete a distância entre o que se supõe ser o futebol e o que ele verdadeiramente é. Nenhum jogador profissional, acostumado ao balanço entre acertos e falhas do qual ninguém está livre, será incapaz de compreender e aceitar o que aconteceu com o goleiro do Liverpool. Mas os experts que observam o jogo à distância farão de tudo para que ele jamais se recupere. Porque o vencedor precisa ser infalível e o perdedor não pode ter qualidades. Há algo que obriga um certo tipo de pessoa a viver sempre entre a reverência e o desprezo, como se os papeis não se invertessem a cada vez que o árbitro apita. E não se aprende nunca, por mais que exemplos como o de Karius, corajoso ao assumir seus erros diante do mundo, sejam uma lição valiosa.



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