Poupe



Durante um congresso sobre futebol no fim de semana passado, em São Paulo, o debate no painel a respeito de preparação de equipes e metodologias de treinamento foi interrompido por uma ironia do mediador: “como se sabe, o futebol ‘é quarta e domingo’. Essa mania de poupar jogador é desculpa de técnicos. Afinal, se na NBA se joga todas as noites, por que tanta frescura?”. Fez-se um silêncio algo nervoso na plateia formada por gente de diversas áreas do jogo e alguns jornalistas mais interessados. Como era possível alguém dizer uma cretinice dessa ordem em um encontro cujo objetivo era compartilhar conhecimento? Bastou um sorriso para revelar a anedota e se pôde “ouvir” o alívio entre os presentes.

Mas a “tese da quarta e domingo”, mantra de um jeito de ver o futebol que já deveria ter sido erradicado dos meios de comunicação, ainda sobrevive em conversas distantes do jogo e, como não?, nas redes antissociais em que a discussão não consegue atravessar a camada do desconhecimento e do achismo. E a cada vez que um “comunicador” – sejam quais forem as tribunas e os objetivos ali perseguidos – dissemina tolices a respeito do que deveria saber, a legião de tolos não só aumenta, mas se enche de razão na própria ignorância. É um fenômeno de alto poder destrutivo que, ao final, mantém o futebol real inacessível a uma parcela do público e expõe técnicos a críticas com as quais não precisam lidar.

Como observou um dos convidados do evento, coordenador científico de um grande clube brasileiro, as pessoas não fazem ideia do “nível de resiliência” necessário para trabalhar no patamar mais alto do futebol profissional no país, uma vez que grande parte do que se conhece sobre treinamento e recuperação não pode ser aplicada a um calendário em que se joga com tanta frequência. Não, ninguém que acompanha futebol tem obrigação de se interessar pela ciência envolvida no jogo e se aprofundar, por exemplo, em temas como o período de descanso mínimo para que um jogador esteja apto a ser treinado. Mas respeitar quem se capacitou para fazer futebol todos os dias não deveria ser uma proposta exagerada. Ou será que não é escandalosamente óbvio que todo técnico adoraria poder escalar o que se chama de “força máxima” em todas as partidas?

A questão não é apenas compreender a necessidade do rodízio de jogadores, método que levou o colombiano Juan Carlos Osório à infâmia de ser ridicularizado pelo dirigente são-paulino que o contratou. É também procurar entender motivos e frequências que orientam a utilização de cada futebolista, porque, entre outras diversas razões, todos são pessoas diferentes, com ofertas, exigências e respostas distintas aos esforços inerentes à profissão que escolheram. E ninguém os conhece melhor e/ou tem mais informações a respeito deles do que as comissões técnicas, formadas pelas pessoas que são remuneradas para determinar quem joga e quem descansa. Mais do que simples desconhecimento, a crítica a esse processo é um exercício de arrogância.

SEM PARAR

A péssima condução pela CBF do caso da “lista secreta” dos suplentes para a Copa do Mundo é compatível com a insanidade de levar o Campeonato Brasileiro até a véspera do Mundial da Rússia.

PRODÍGIO

O Flamengo joga mal, com muita frequência e há muito tempo, resultado óbvio da sequência de trabalhos interrompidos ao longo das últimas temporadas. Mas a inteligência de Vinícius Júnior para se desmarcar e oferecer opções a companheiros salta aos olhos. É uma virtude rara em jogadores tão jovens.

ÚLTIMA CHANCE

Paolo Guerrero tentará o último recurso, no Tribunal Federal da Suíça, para poder disputar a Copa. A punição ao atacante peruano, uma violência, deveria ser incluída em uma ampla rediscussão dos regulamentos para casos de doping. É possível que a WADA (Agência Mundial Antidoping) altere seu código no ano que vem e corrija certos excessos. Para Guerrero, pode ser tarde demais.



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