Pertencimento



A troca de comando no Corinthians não testará apenas o time, a linha de trabalho sustentada há anos no clube e, claro, a capacidade de Osmar Loss, diante do maior desafio de sua trajetória. Será também um exame para a relação torcedor-técnico que se estabeleceu quando Fábio Carille – sem a confiança daqueles que foram forçados a “escolhê-lo”, lembre-se – assumiu a posição e conferiu à figura do treinador do Corinthians um caráter de décimo-segundo jogador.

Quando o torcedor se refere ao profissional que dirige seu time como “nosso técnico”, a expressão, na grande maioria dos casos, tem o significado de “técnico do nosso time”. As características da dinâmica entre clubes e treinadores no futebol brasileiro dificultam a identificação, pois o indivíduo à frente do banco está ali de passagem. É muito mais alguém a ser responsabilizado nos momentos ruins do que uma pessoa para abraçar, acolher. Por permanência e proximidade ao corintiano, Tite ativou um senso de pertencimento que Carille foi capaz de enfatizar, especialmente por ter sido formado no clube. O sentido de “nosso” é diferente.

Ao longo do período sob Carille, a maneira como o Corinthians competiu e conquistou colaborou muito para apresentá-lo como representante de um jeito de jogar que o torcedor sente como próprio. Não é uma imposição da visão do técnico ou um estilo determinado pelos jogadores, mas uma personalidade com a qual a arquibancada se acostumou. O Corinthians é, por linhas meio tortas e algum acaso, o exemplo mais próximo de “identidade de futebol” que existe no país, o que oferece a Loss um caminho que ele conhece. Não há como garantir sucesso ou fracasso porque o jogo não admite esses devaneios, e porque as pessoas são diferentes.

No melhor cenário, Loss dará sequência ao desenvolvimento da ideia com sua maneira particular de trabalhar e desfrutará do relacionamento especial com a torcida que seus antecessores criaram. O campo será determinante, claro. Se o time se mantiver em bom nível nas mãos do segundo ex-auxiliar consecutivo, é possível que outros clubes percebam os benefícios das soluções internas na construção de um ambiente favorável e, de certo modo, sustentável. E será menos complexo entender por que, mesmo que os valores oferecidos pelo chamado mundo árabe sejam irrecusáveis, o Corinthians apenas observou a saída de Carille.



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