Por trás dessa lente



A dificuldade para relacionar um técnico de óculos escuros em uma cadeira de praia ao futebol sofisticado apresentado pelo Grêmio tem estimulado a busca pelo “gênio tático” que está por trás do repertório do campeão da América. A conclusão geral é que se não for Renato Portaluppi, mesmo na praia, então só pode ser alguém que trabalhe com ele. A procura por segredos que expliquem o que não se compreende é sempre tentadora, embora, neste caso, seja fútil. Não há um cérebro superior pensando o jogo da equipe que pratica o futebol mais elaborado do país, mas um encontro de fatores – a sorte entre eles, como é frequente – que vem sendo administrado com maestria por Renato, com ativa participação dos jogadores.

Que não se tente encontrar aqui qualquer tipo de crítica à comissão técnica gremista ou aos profissionais dos setores que a cercam. Ver o time jogar torna óbvio que há um trabalho competente em andamento, assim como em outros clubes que hoje estão abaixo do time gaúcho em desempenho. O que provavelmente diferencia o Grêmio é a reunião de cinco ou seis futebolistas tecnicamente privilegiados dentro de um ambiente em que as opiniões dos jogadores são consideradas, sob o comando de um ídolo que tem sido muito hábil no sentido de tirar deles o melhor. A imagem de Renato, o símbolo, é uma das faces de Renato, o técnico. Elas se alternam conforme a ocasião e a necessidade, mas não devem ser confundidas.

É evidente que o Grêmio não vem sendo dirigido sob o mantra “quem sabe, vai à praia” (famosa frase de Renato, após o título da Copa do Brasil de 2016), o que não quer dizer que Portaluppi tenha se convertido em um visionário. Quem tem conhecimento sobre o dia a dia do time observa que o técnico exerce sua liderança com inteligência e respeito, a ponto de estabelecer uma espécie de autogestão em relação ao modo de jogar. Os jogadores opinam, sugerem mudanças, apontam caminhos, de forma a se sentirem corresponsáveis pelo trabalho. Um sinal desse relacionamento é o volume de comunicação que se nota no time durante os jogos, uma rotina que é transportada para o campo.

Renato também mexeu em outras cordas importantes, como, por exemplo, algumas horas a mais de folga concedidas em caso de vitória fora de casa. Colaborou para a determinação de que toda e qualquer premiação por conquista irá integralmente para o vestiário, e estimula, com orientações que envolvem posicionamento corporal, a confiança dos jogadores para tentar vitórias pessoais nos movimentos ofensivos. Embora o Grêmio seja um time com marcante personalidade coletiva, há notável frequência de jogadas de sucesso individual em ocasiões de gol. É só um aspecto de um trabalho muito mais complexo, mas uma evidência do ídolo – neste caso, um atacante que viveu desse tipo de lance – em ação. Há, também, relatos de jogadores sobre a capacidade do técnico de motivá-los, por vezes, de maneira comovente.

Está claro que os jogadores do Grêmio atualmente vivem uma situação que deve ser aproveitada ao máximo. Sabem que os bons times têm vida curta no futebol brasileiro, sentem-se participantes do processo e estão satisfeitos no ponto de vista financeiro. Essa configuração ajuda a entender como futebolistas que pareciam descartados em outros clubes se encontraram com suas melhores versões ao vestir a camisa gremista, alimentando um time que precisará de todos para alcançar o que se propõe. E com jogo suficiente para pertencer ao debate sobre o melhor Grêmio da história, eles experimentam um nível de sucesso profissional personificado pela pessoa que os comanda. Deve ser muito bom jogar no Grêmio em 2018.

PENA, DANI

Só a combinação de ignorância e antipatia gratuita pode levar alguém a dizer que a ausência de Daniel Alves na Copa do Mundo não será um problema para a seleção brasileira. Acima de tudo um problema de jogo, que é o que mais importa.



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