Normalidade



No mesmo dia em que se tornou pública uma pesquisa do Datafolha que enterra – mais uma vez – o mito do “país do futebol”, tiros foram ouvidos durante a invasão do treino de um clube da Série A. No Brasil em que 41% dos consultados diz não se interessar minimamente por futebol, jogadores profissionais que pertencem ao estrato mais privilegiado da categoria são visitados em seus locais de trabalho por “representantes” de torcedores, sempre com uma ameaça evidente, porém disfarçada pela proposta de uma reunião pacífica. Ontem foi em São Januário, no Rio de Janeiro, mas basta uma fase ruim para que o endereço mude e a cena se repita, seguida por complacência, em um loop que “faz parte da cultura do nosso futebol”.

Alguém dirá, pois sempre é assim, que os eventos da manhã de sexta-feira no Vasco não foram tão sérios como o vídeo que circulou online leva a crer. Que o gelo que sobe pela espinha de quem ouve o barulho dos disparos em meio à correria no gramado é um exagero. As explicações e os contextos, além do fato de não haver vítimas, contribuirão para minimizar o absurdo e o jogo seguirá como já aconteceu centenas de vezes. Mas a sensação de que o futebol brasileiro está a um instante de irracionalidade de uma tragédia se impõe. Em clubes como o Vasco, onde o ambiente político se tornou bélico e a situação de penúria corrói o time, a tensão fica exposta a cada derrota e a violência parece ter geração espontânea.

A ironia é que os abnegados que invadiram a sessão de treinamentos não se interessam por futebol, mas sim pelo que o futebol lhes proporciona. Se estivessem preocupados com a equipe, cuidariam das próprias vidas e permitiriam que jogadores e comissão técnica trabalhassem em paz. Ocorre que os “torcedores profissionais”, aqueles que se consideram mais apaixonados do que os outros, fazem parte do ecossistema de clubes e têm o próprio território a defender, daí seu papel de poder paralelo. Obviamente não surgiram do nada. Se a corda for puxada com o devido vigor, aqueles que os habilitam e alimentam aparecerão, e casos como o de ontem serão compreendidos em detalhes.

Em fevereiro de 2014, cerca de cem corintianos top de linha forçaram sua entrada no centro de treinamentos do clube num sábado de manhã, com planos de quebrar as pernas de Emerson Sheik e Alexandre Pato. A maioria dos jogadores estava dentro do vestiário, onde armários foram arrastados para proteger as portas e evitar a invasão. Uma faxineira sofreu agressão física e se comentou que Paolo Guerrero, o herói de Yokohama, recebeu uma chave de pescoço – ele nega, mas até hoje há controvérsia – ao encontrar os “manifestantes” no corredor. Nada de mais grave aconteceu, embora jogadores e funcionários afirmem que a história seria muito pior se os alvos da ação tivessem de se defender.

O evento trágico que bateu na trave naquela ocasião voltou a se apresentar em São Januário, quando jogadores tiveram de correr para se proteger de cerca de quarenta vascaínos de uma casta superior. O técnico dialogou com eles, o presidente disse que pedirá uma investigação, o time voltará a jogar no fim de semana. Entre o amor e o terror, a normalidade se sustenta sem que ninguém pareça se importar, o que talvez ajude a explicar por que a torcida que mais cresce no Brasil – 10% em oito anos, segundo o Datafolha – é a de quem não quer saber de futebol.

COBRANDO

No caso do Vasco da Gama, condenar os jogadores após a eliminação na Copa Libertadores é o ápice da irracionalidade. O mesmo se aplica à comissão técnica que comanda um time que sofre de expectativa muito superior ao seu real potencial.

RODANDO

Em mais um jogo fora de casa na Libertadores, e desta vez com o time reserva, o Palmeiras voltou a se sentir confortável e dominar o adversário. Roger Machado tem conseguido envolver todo o elenco que lhe oferece tantas opções.



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