Castigo



O curso de como não fazer futebol apresentado pelo Flamengo a uma audiência nacional chegou ao momento mais vexatório na sexta-feira passada, quando o clube permitiu que uma dúzia de desocupados agredisse os jogadores que embarcavam para Fortaleza. Por sorte, ninguém se feriu com gravidade, mas a tendência é que o episódio ainda produza uma vítima: o goleiro Diego Alves cometeu a ousadia de atirar um copo de café na direção dos trogloditas, um gesto de defesa absolutamente compreensível no mundo real, mas imperdoável no mundinho do futebol brasileiro, em que vândalos se sentem donos de clubes e acreditam que podem disciplinar jogadores.

As pessoas que tomam decisões no Flamengo são responsáveis por esse absurdo, mas não estão sozinhas. A venda ao público de que recursos generosos automaticamente resultam em um time vencedor, somada à caracterização de futebolistas profissionais – quando as coisas vão mal – como milionários imaturos, contribui para o tipo de condenação que se viu no Aeroporto Antônio Carlos Jobim. Sem falar nas entranhas políticas de clubes desse porte, especialmente revoltas em períodos eleitorais. Não há como defender o futebol apresentado pelo Flamengo no empate com o Independiente Santa Fe, mas eventos como o da última sexta têm origem nas diversas ignorâncias com as quais o jogo convive há muito tempo, sem que providências sejam tomadas.

Nos clubes, nas ruas e nas redações há quem defenda que o medo de “torcedores organizados” é útil para que jogadores tenham noção da realidade e percebam que devem justificar a vida privilegiada que levam, como se estivessem em dívida eterna com a arquibancada. Daí a postura contemporizadora de dirigentes que preferem deixar a temperatura esfriar a garantir que casos de violência não se repitam. É mais do que a simples resignação de quem entende que a agressão “faz parte da cobrança em clubes de massa”, em si uma ideia abjeta. É a utilização do abuso como ferramenta de gestão. Enquanto é impossível impedir que um jogador seja abordado de maneira inapropriada quando vai ao shopping, o embarque de uma delegação no aeroporto só termina em briga se o clube não tomar as medidas necessárias.

O castigo a jogadores que “não se esforçam” é o produto final do desrespeito ao processo de montagem de equipes, outra atribuição de quem dirige. Embora tenha receitas para contratar e manter futebolistas de alto nível, o Flamengo desobedece os manuais que os transformam em um time e observa a insatisfação popular escolher os culpados. Quando o termômetro explode, espera-se que os jogadores se comportem como cordeiros e aceitem a brutalidade como se a merecessem. Aqueles que respondem ou reagem são vistos como párias que cruzaram a linha proibida, mas quem os agride deve ser absolvido em nome da paixão.

Haverá quem pense, e até diga, que o episódio no Tom Jobim ajuda a explicar a vitória por 3 x 0 sobre o Ceará, que levou o time à liderança do Campeonato Brasileiro. É uma conclusão que se encaixa na narrativa da punição a futebolistas da mesma forma que se fazia antigamente com crianças insolentes, mas uma tolice que ignora como o futebol funciona. Enquanto não houver uma intervenção adulta no modo de pensar e agir, “emboscadas” se seguirão, jogadores ficarão “sem ambiente” e aqueles que têm tempo para ameaçá-los em aeroportos continuarão dando ordens.

IMBECIS

“Não é apenas um assunto da Roma. É um assunto da Itália, das autoridades e de todos nós, para que finalmente acordemos e não tenhamos uma reputação que não merecemos. Nossos torcedores são os melhores do mundo. São apenas dois imbecis que nos colocam para baixo”. Frases de James Pallotta, dono da Roma, sobre o episódio em que dois torcedores do time italiano deixaram um torcedor do Liverpool em estado crítico, na semana passada. Ambos foram presos e serão acusados de tentativa de assassinato.



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