Nome de escola



Na escola de futebol em que Andrés Iniesta foi alfabetizado, o passe é como as palavras. É pelo compartilhamento da bola que jogadores conversam, se entendem e constroem narrativas em campo. Os professores dessa escola estão convencidos que o menino que ali chegou aos doze anos, e está saindo aos trinta e três, é o produto mais bem acabado desse tipo de formação. Iniesta não é apenas o melhor aluno, é alguém que um dia talvez dê nome à escola. Seria apropriado.

Dizem esses professores, como conta o escritor espanhol Martí Perarnau em um de seus livros, que a maioria dos jogadores de futebol faz um passe como se estivesse dizendo a um companheiro: “toma, faça o que puder”. Iniesta passa a bola com outra mensagem: “toma, faça o que quiser e se divirta”. Eles também dizem que Andrés é capaz de tomar um cafezinho enquanto controla a bola sob pressão dos adversários, pois seu domínio do vocabulário do futebol é inigualável. É por isso que o chamam de Don Andrés.

Se uma pessoa representa o jeito de jogar que o Barcelona ensina e, quando bem executado, alcança o nível máximo de beleza e eficiência, essa pessoa é Andrés Iniesta. A genialidade frágil, a técnica refinada, a inteligência superior e a sensibilidade incomum o converteram em um símbolo do que parece inatingível. Iniesta faz o que ninguém faz. Se outros fizessem, não fariam tão bem quanto ele. É uma espécie de oráculo de uma forma de ser, de entender e praticar o futebol que pertence a uma casta elevada, o tipo de talento que jogadores profissionais gostariam de possuir por apenas alguns minutos. A quem acompanha o jogo, cabe celebrar o privilégio de tê-lo visto desde o início, usufruir do trecho final de uma trajetória brilhante, e tratar da saudade que certamente chegará.

Enquanto isso, a turnê de adeus ao Barcelona passará pelos estádios que restam na programação de jogos do Campeonato Espanhol, locais em que cenas vistas na semana passada em Madri se repetirão: substituído ao final do encontro, Iniesta deixará o gramado sob palmas dos jogadores e torcedores dos dois times. Ele retribuirá o gesto ao passar pela linha lateral, em um agradecimento sincero que evidencia a elegância que o caracteriza. Ainda haverá uma última Copa do Mundo a disputar, e talvez conquistar, antes de vestir uma camisa de clube diferente da que sempre o acompanhou. Seu coração não lhe permitirá enfrentá-la, razão pela qual ele irá para longe, onde se sentirá em outro planeta e não sofrerá com o que não pode ver.

Iniesta está deixando a escola em que passou a vida, mas seguirá fazendo passes em algum lugar. A voz que sofreu com a emoção no anúncio da despedida poderá ser ouvida em outros campos, para o luxo de quem tiver a sorte de conversar com ele e a sabedoria para aprender um pouco do que ele pode ensinar. Onde Andrés Iniesta estiver, o glossário do futebol continuará em evolução, com letras douradas e palavras que ninguém mais conhece, frases geniais e histórias que só ele é capaz de contar.

SORTUDO

É comum que se diga que Iniesta teve a “falta de sorte” de ser contemporâneo de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, como forma de explicar, por exemplo, o fato de não ter sido eleito o melhor jogador do mundo. Talvez seja verdade, mas atuar ao lado de Messi por tanto tempo e estabelecer com ele uma parceria tão boa não tem nada de falta de sorte, ao contrário. Especialmente para quem personifica o jogo coletivo.

BANIDO

Marco Polo viajou para longe do futebol. Ao menos é isso que a FIFA pensa que determinou com o banimento do ex-presidente da CBF pelo resto da vida. Mas enquanto esteve suspenso pela mesma FIFA, Del Nero não teve problemas para articular como e para quem o poder na confederação seria transferido, cenário que não será alterado apenas porque ele mudou de status. Del Nero seguirá rodando atrás da tela, embora constrangido pela punição vitalícia e sobressaltado a cada vez que a porta do elevador fechar.



MaisRecentes

Pertencimento



Continue Lendo

Vitória com bônus



Continue Lendo

Anormal



Continue Lendo