Fechamento



A zona mista do estádio Nelson Mandela Bay, em Port Elizabeth, fazia um zigue-zague da porta do vestiário até o local de estacionamento dos ônibus. Ao percorrer o trajeto após a derrota da seleção brasileira para a Holanda, na Copa do Mundo da África do Sul, Júlio César sabia que haveria muitos repórteres esperando por ele. O goleiro tentou explicar a eliminação nas quartas de final com voz baixa, olhando frequentemente para o chão enquanto respondia as perguntas que o obrigavam a reviver a tristeza. Após alguns minutos de conversa, fez uma pausa e, em tom definitivo, concluiu dizendo que “cara… essa derrota ainda vai me machucar muito”.

Meses depois, em 2011, durante uma sessão de entrevistas em um hotel de Milão, o então número 1 – às vezes 12 – da Internazionale ouviu um jornalista brasileiro descrever a cena da zona mista em Port Elizabeth. Disse que não se lembrava exatamente da frase, mas que ela representava à perfeição o que sentiu naquele dia. “Mas sabe o que é legal?”, comentou, “Na próxima Copa a gente vai se encontrar no mesmo lugar e vai poder se abraçar e dizer que tudo aquilo passou”. Não foi possível. Dois mil e quatorze foi ainda mais cruel com o goleiro do Brasil, vítima impotente da tragédia de Belo Horizonte/Brasília, em que sofreu dez gols.

Mas tudo passa. E quando Júlio César refletir sobre suas duas décadas no futebol, a noite do último sábado trará um sorriso e paz interior a quem se despediu da maneira que desejava. Com a camisa do clube de sua vida (embora tenha atuado mais vezes pela Inter, onde viveu seu auge e foi reconhecido mundialmente), próximo do público com o qual se identifica e no local que simboliza essa relação. E para tornar o adeus ainda mais relevante, Júlio César foi necessário na partida em que o Flamengo venceu o América por 2 x 0. Ao atender seu pedido de atuar como titular pela última vez, o clube não lhe fez nenhum favor, e quem esteve no Maracanã para prestigiá-lo notou sua capacidade de intervenção em defesas que contribuíram para o resultado. Uma cerimônia pessoal realizada durante um jogo oficial, com estádio cheio e três pontos conquistados. Exatamente como ele imaginou.

O choro de Juan, a quem Júlio César trata como irmão, foi a medida mais pura do significado da ocasião. Tornou-se normal a organização de grandes festas para o encerramento de carreiras esportivas, eventos midiáticos que mais se parecem com shows. Não há nada de errado nisso, mas não é a única forma de chegar ao ponto final, e nem necessariamente a melhor. Nem todos os jogadores de futebol se consideram personalidades de um mundo em que o esporte e o entretenimento se fundem e se confundem. Aliás, a maioria se enxerga como privilegiados que, se pudessem, permaneceriam dentro do campo eternamente. O jogo é a vida, e o inevitável último jogo é um dia de sensações contraditórias.

“Crescemos juntos nesse clube”, escreveu Juan, em seu perfil no Twitter. “Dois moleques, cheios de sonhos. Conhecemos o mundo e voltamos para casa. Hoje você se despede dos gramados, mas nunca do futebol. Porque um ídolo fica marcado para toda vida. Obrigado por voltar aqui para ser feliz. Obrigado, meu irmão”. O que poderia ser mais bonito? As feridas de uma longa carreira se fecharão com o tempo. O que ficará é uma coleção de momentos como a noite de anteontem, em que tudo se alinhou para dar a Júlio César o sentido de fechamento que ele veio buscar no Flamengo.

DON ANDRÉS

Também no sábado, Andrés Iniesta disputou sua última final pelo Barcelona. Foi um recital de futebol técnico, inteligente, superior, na goleada de 5 x 0 que valeu o título da Copa do Rei. Se alguém representa pessoalmente o jogo coletivo que o Barcelona ensina, esse alguém é Iniesta, um jogador como nenhum outro, irrepetível em sua genialidade frágil, em sua simplicidade para pensar o que ninguém pensa e fazer o que ninguém faz.



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