Futebol champanhe



Ontem foi um dia horrível para os apaixonados pelo futebol vulgar. Um time dirigido por Pep Guardiola conquistou mais um título – o vigésimo-terceiro da carreira do técnico catalão, iniciada em 2008 – apresentando um futebol de estilo e eficiência, estética e vitórias, técnica e beleza. O fato dessa conquista ser na Premier League, com dezesseis pontos de vantagem para o segundo colocado e com cinco rodadas de antecipação, aumenta o horror dos que enxergam o jogo como uma briga entre dois brutos de baixa contagem neuronal. Especialmente porque especialistas locais, orgulhosos de uma liga que supunham estar acima das outras no que ocorre dentro do campo e avessos a uma classe diferente de futebol, foram taxativos ao duvidar das possibilidades de um time que se propusesse a atuar com tamanha sofisticação.

Estão quietos agora, ou se juntaram à “turma do mas…” (mais sobre isso adiante) sem perceber o nível de constrangimento a que se expuseram. O “futebol champanhe” do City transformou o campeonato mais competitivo do mundo em uma procissão desde a semana do Natal do ano passado, com um nível de superioridade técnica que já tinha sido observado em outros países europeus, mas era inédito na Inglaterra. Três derrotas seguidas recentes – e uma sentida eliminação na Liga dos Campeões – foram suficientes para despertar críticos dormentes, tipos que aguardavam o momento de dificuldade que todos os times experimentam ao longo de uma temporada, para reafirmar convicções que não sobrevivem a dez segundos de raciocínio. A janela se fechou no fim de semana, após o Manchester City vencer o Tottenham e o Manchester United ser derrotado, em casa, pelo lanterna do campeonato.

Como o City jogou no sábado, o futebol de Johan Cruyff conquistou a Premier League enquanto Pep Guardiola se divertia no campo de golfe. Pode não ser a maneira mais emocionante de ganhar um troféu, mas não diminui o mérito e, a bem da verdade, é uma imagem que descreve apropriadamente a temporada inglesa. O City celebrará o título em seu estádio no próximo domingo, e, se mantiver a ambição e os patamares de desempenho, buscará recordes em uma campanha que será lembrada não apenas pelo resultado final, mas pela maneira como ele foi alcançado. Essa é a grande diferença entre vencer – alguém vence em todos os anos – e vencer com distinção. Não deveria ser um conceito de difícil compreensão até para quem afirma preferir “outro tipo de futebol” e falha ao notar que a evolução do jogo depende daqueles que se propõem a questionar as verdades estabelecidas. Mas, com o devido pedido de perdão pela repetição, apreciar futebol feio é ainda pior do que não gostar de futebol.

Em muitos aspectos, é uma experiência semelhante a observar um quadro. Há quem simplesmente olhe e diga se gosta ou não, sem saber direito por quê. E há quem se interesse pelo assunto a ponto de se aprofundar pela história do pintor, suas referências, as técnicas utilizadas e, acima de tudo, as sensações que ele pretende proporcionar com seu trabalho. O conhecimento permite uma visão mais detalhada do que se imagina ser o jogo, além de uma noção mais ampla dos níveis de dificuldade enfrentados por quem pretende construir equipes que interpretem o futebol como o Manchester City faz. A distância e as superficialidades fazem tudo parecer simples ou obra do acaso, como se as grandes equipes da história – aquelas que são lembradas pelo que ofereceram, não pelo que venceram – surgissem por geração espontânea. O City de 2017-18 mostrou que é possível vencer com classe e categoria no futebol inglês, e a partir de agora, como aconteceu na Alemanha, outros clubes e técnicos tentarão imitar.

Mas o Barcelona estava pronto. Mas com Messi é fácil. Mas o campeonato alemão é fraco. Mas na Inglaterra é diferente. Mas falta ganhar a Liga dos Campeões. A “turma do mas…” sempre tem algo a dizer, enquanto Pep Guardiola segue vencendo.



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