Infinito



Quem viu a virada da Roma pela televisão não esquecerá onde estava, com quem e como reagiu. Os privilegiados que foram ao Estádio Olímpico guardarão a noite de terça-feira como um troféu sentimental. Aqueles que estiveram em campo, que jogaram este jogo, muito provavelmente jamais experimentarão algo semelhante em suas carreiras. Assim como se diz sobre a capital italiana, este Roma x Barcelona será chamado de “o jogo eterno”. Um encontro sem fim.

Porque o futebol não tem fim. A tendência a converter noites como essa em teses sobre o esporte indomável seguirá sendo desmentida. Enquanto se falar em orçamento, ou, pior, em obrigação – um termo que o jogo nunca aceitou – , o futebol seguirá gargalhando como fez anteontem. A Roma eliminou o Barcelona com o coração e o trabalho de um técnico e de jogadores obstinados pela realização de um plano ousado. A descrição da vitória do Liverpool sobre o Manchester City, embora em contexto distinto, é rigorosamente a mesma.

Dentro da enormidade de seu significado para quem a viveu, uma noite assim se encerra em si mesma do ponto de vista do jogo. Não é o estabelecimento de uma nova era ou a comprovação de qualquer raciocínio. Conjecturas momentâneas trabalham por diversos propósitos, quase todos relacionados ao universo midiático, dispensáveis em sua gigantesca maioria. Ao futebol, não servem nem por um minuto. Se tanto, essas noites mostram como é difícil vencer, e como aqueles que vencem quase sempre terminam por se tornar vítimas das próprias vitórias, obrigados a repeti-las sem descanso para responder aos enamorados pela mediocridade.

Perceba a linha que insiste em enfatizar o lado vencido quando o futebol proporciona surpresas deste tamanho. Note a vocação para a diminuição, a predileção por apagar luzes ao invés de acendê-las, a escolha pelo olhar raso que pretende resumir tudo a um instante e determinar o que se seguirá. Compare esse tipo de “análise” com as declarações de quem venceu e, portanto, sabe o quanto custa e o quanto vale. A diferença de visão revela uma indisfarçável dificuldade de lidar com o mérito alheio, reflexo de um estranho desejo por um mundo de fracassados, em que, ao menos, todos são iguais.

O futebol ri. Dos especialistas que veem sem enxergar, e, especialmente, dos legistas sempre a postos para o relatório final. Porque o sempre não existe no jogo. Só o hoje, compreendido em seus próprios limites, porém eterno como uma noite sem fim.



MaisRecentes

Amanhã



Continue Lendo

Novo



Continue Lendo

Virtual



Continue Lendo