Coragem



A partida contra o São Paulo foi valiosa para os jogadores e a comissão técnica do Atlético Paranaense, não só pela vantagem construída no confronto da Copa do Brasil. Da forma como a temporada foi planejada – com o time considerado titular dispensado do campeonato estadual – , o encontro de quarta-feira foi o mais exigente do ano para uma equipe que atuou poucas vezes. E o fato de o Atlético ter aplicado uma ideia de futebol capaz de dominar trechos da partida aumentou a confiança de que é possível encarar o Campeonato Brasileiro com o jogo de posse e associação que começa a nascer. Na verdade, mais: a vitória por 2 x 1 reforçou a ideia principal de que essa classe de futebol pode levar o time a uma posição bem superior à que o orçamento do clube sugere.

Um lance que aconteceu aos treze minutos do segundo tempo ilustrou o que o time dirigido por Fernando Diniz se propõe a fazer. A bola saiu pelo lado direito da defesa, pressionada pelos jogadores são-paulinos mais avançados. A troca de passes de primeira a levou ao centro do campo e, dali, para o lado oposto e de volta ao meio para Guilherme, que tentou o gol por cobertura. O Atlético se transportou com circulação precisa, sem o menor sinal de incômodo com a marcação, em um movimento de uma área à outra que poderia ter resultado – Guilherme ainda tinha duas opções de passe dentro da área, mas preferiu finalizar – em um exemplo de gol coletivo. Não chegou a isso, mas é um modelo de saída trabalhada repetido exaustivamente em treinamento e reproduzido em competição.

Hoje, essa é a principal tarefa de Diniz, e por isso o jogo contra o São Paulo tem sido mencionado em conversas internas nos últimos dias. No campo de treino, o time do Atlético constrói jogadas como essa com desenvoltura e enorme frequência. A questão é a evidente diferença de condições entre os ensaios privados, situações em que erros quase não têm significado, e os jogos, aos olhos de todos, em que um passe mal feito pode levar à derrota. A beleza embutida nessa proposta é que se trata fundamentalmente de coragem, depende de que jogadores se apresentem para participar das sequências que retiram a bola da pressão e geram vantagens no trajeto ao gol adversário. Essa visão de futebol só está ao alcance de equipes em que jogadores atuam próximos e estão permanentemente dispostos ao sacrifício solidário, um espírito que não se instala num estalar de dedos.

As opiniões sobre a atuação do Atlético na noite de quarta-feira revelam uma dinâmica interessante, que deve perdurar pela temporada. O time foi mais elogiado fora do Paraná do que pela cobertura local. Em parte, a discrepância se deve ao relacionamento desgastado entre o clube e os órgãos de imprensa mais próximos, equívoco institucional de uma entidade que deseja ser bem avaliada, mas não investe em comunicação. E em outra parte, porque enquanto o Atlético é tratado localmente como o grande clube de sua região, sua imagem nacional é mais modesta. O distanciamento, neste caso, traz o benefício de uma análise neutra e provavelmente menos rigorosa, mais atenta ao fato de o time com menos recursos não ter apenas vencido, mas superado seu oponente em termos de jogo.

A partida de volta oferecerá mais informações. A intenção de Diniz é atuar fora de casa com a mesma planificação, o que exigirá um passo à frente tanto no nível de convicção dos jogadores quanto em questão de desempenho. O Atlético terá mais dificuldades para enfrentar – a seu modo – o São Paulo no Morumbi do que teve em Curitiba, embora possa trabalhar com a vantagem do empate. A Copa do Brasil é importante para a leitura do trabalho autoral do técnico e para a trajetória de um time que pretende deixar de ser mais do mesmo. Além dos adversários em campo, o Atlético Paranaense de 2018 desafia a mentalidade que dificulta o desenvolvimento do futebol no Brasil.



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