Sublime



Quando Cristiano Ronaldo deixar o futebol, os gols, os títulos e os prêmios pessoais representarão a trajetória formidável de um dos grandes jogadores da história. Suas temporadas goleadoras serão lembradas pelos torcedores das camisas que ele vestiu, e registradas nos livros como a expressão de uma capacidade de finalização que merece um lugar particular no olimpo do jogo. E entre as centenas de comemorações, algumas mais valiosas do que outras, estará aquela que ilustra um acontecimento especialíssimo no futebol. Só o próprio Ronaldo poderá medir o valor da noite de três de abril de 2018.

O aplauso da torcida da Juventus após o segundo gol do Real Madrid é um troféu que poucos jogadores possuem. Ver um estádio saudar o autor de uma ferida em sua alma coletiva não é um evento frequente, e nem deveria. É justamente a raridade que faz da ocasião uma cena única, capaz de inverter a ordem sentimental que quase sempre prevalece e superar as barreiras impostas pela paixão. Após a mágica bicicleta que paralisou Buffon, o público italiano se pôs a bater palmas para Cristiano. Foi um ato genuíno e discreto de admiração, mas uma sonora reverência ao futebol e a seus significados.

Há quem prefira enxergar este jogo como um confronto medieval em que certas posturas são inaceitáveis. A pretensa incapacidade de louvar um rival é apresentada como uma característica máscula, embora seja apenas um discurso triste. Não faria sentido aplaudir quem nos quer tirar a vida, mas a relação entre as pessoas e o futebol não deveria se confundir com duelos em que apenas um sobrevive. De fato, é o contrário. O futebol é a “vida” para quem joga e treina. Para quem o cultiva no coração, à distância da grama, é uma razão para viver melhor, apesar dos momentos dolorosos dos quais ele também é feito. Elevar o jogo a uma força superior que determina o que se pode ou não sentir não é uma demonstração da sua importância, mas um autoengano.

Ou será que o torcedor da Juventus que exaltou Cristiano Ronaldo sente menos amor por seu time do que aquele que – oh, Deus, que dor insuportável… – “não consegue” fazê-lo? Um gol antológico como aquele, e o fanático só é capaz de exibir o dedo médio? Cabe perguntar se o relacionamento não foi construído com sentimentos errados, pois o futebol é muito, muito mais do que isso. E Cristiano merece sentir a enorme satisfação a cada vez que relembrar um instante icônico não pelo que representou, mas pelo que provocou.



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