Testosterona



A condenação da arbitragem após partidas tumultuadas por quem deveria estar preocupado em jogá-las representa, além de um raciocínio equivocado, a busca por culpados convenientes. É um expediente perverso que não só diminui a perspectiva de solução, como também fermenta o problema que deveria ser combatido. Enquanto árbitros forem responsabilizados por permitir que encontros se descontrolem no aspecto disciplinar, os jogadores que de fato conturbam partidas seguirão à vontade para manter esse comportamento danoso ao futebol. O pior é que o cartão vermelho já se provou ineficiente no contexto mais importante: a ausência de uma ou outra figura exagerada não impede a manutenção do método, pois, mais do que de regras, essa é uma questão de respeito. Ao jogo, aos adversários ocasionais que são colegas de profissão, aos componentes da arbitragem e, acima de tudo, ao público.

Em relação ao público, embora seja desanimador, é preciso dar uma espécie de salto de fé, pois o espetáculo de testosterona que se percebe em jogos mais importantes ou em que há maior rivalidade pode ser precisamente o que se deseja. Como se o espírito intolerante que exige que o “inimigo” seja eliminado, e não apenas vencido, tenha migrado dos setores mais violentos das arquibancadas e se apoderado do gramado, onde se prefere a briga ao jogo. Reclama-se que a conversão do futebolista em profissional do entretenimento o afastou de quem o sustenta, mas as redes antissociais podem ter provocado o caminho inverso: estão mais próximos do que nunca, mais semelhantes em conduta do que jamais foram, pois as fronteiras – de território e modo de vida – não resistem à interação que evidencia um senso de pertencimento que só considera o valor da vitória por qualquer via.

É impossível ser árbitro neste ambiente. O temor de um erro técnico determinante está presente como algo a ser evitado do primeiro ao último apito, exacerbado pelos ângulos da televisão, que exibem o que olhos humanos não são capazes de enxergar. Como tarefa adicional, há que se conter a temperatura de uma arena em que a maioria dos atores não está disposta a colaborar. Ao contrário, condicionar a arbitragem é parte da estratégia de diversas equipes, motivo pelo qual há jogadores que não fazem outra coisa além de pedir cartões amarelos para oponentes. A pressão continua depois do jogo: o árbitro de pouca tolerância que expulsa cedo é rotulado por um caráter policialesco; o paciente, que prefere mediar, é frouxo. Em campo, não há o menor sinal de cooperação. Fora, falta compreensão. Quando se decide que a partida foi corrompida, é mais fácil responsabilizar quem tem de atuar como disciplinador do que notar que o bom andamento das coisas não está nos planos de ninguém.

Isto não é uma defesa intransigente dos árbitros, mas uma censura a essa postura desrespeitosa, geralmente aceita e até aplaudida como resultante do desejo de vencer. Jogadores que não se alistam na guerra são criticados por falta de empenho, numa visão do jogo de futebol como uma luta governada pela noção de que ir ao limite do que é permitido é a obrigação de todos. Mas impor esse limite é a obrigação de um só. A diferença é observada quando as equipes demonstram a intenção primordial de disputar um jogo e vencê-lo pelo balanço de virtudes e defeitos, como Botafogo e Vasco fizeram ontem. O trabalho do árbitro se torna uma anotação ao pé da página, não a manchete sensacionalista que faz dele o réu por não controlar o incontrolável.

SALIVA

Não se perde a chance de deixar o pé mais alto em qualquer dividida, o cotovelo em todas as disputas pelo alto. Nos lances em que se aposta corrida para chegar primeiro, próximos às linhas, o plano quase sempre é jogar o adversário para longe. Mais do que vibrar e babar com esse campeonato de virilidade, há quem ache que futebol é isso.



MaisRecentes

Voltando a Berlim



Continue Lendo

Passo adiante



Continue Lendo

Futebol champanhe



Continue Lendo