Régua



Os simpáticos ao futebol aborrecido costumam recorrer a uma pergunta retórica, sempre que os times que praticam um jogo mais elaborado são elogiados. “Todas as equipes precisam jogar da mesma forma?”, questionam, como se houvesse qualquer intenção – ou, neste caso, condição – de converter o mundo em uma gigantesca roda de bobinho. É evidente que não. Cada time interpreta o futebol da maneira que considerar conveniente, de acordo com o que dispõe e o que pretende. Aí está um dos segredos desta paixão; a possibilidade de escolher de que maneira se quer vencer.

As incoerências surgem quando o comportamento de uma determinada equipe se caracteriza pela redução das próprias capacidades. Quando o desempenho sugere desperdício de recursos e o resultado supostamente justifica todas as opções. O Manchester United, eliminado da Liga dos Campeões após ser lecionado em seu próprio campo pelo Sevilla (quinto colocado no campeonato espanhol, 27 pontos atrás do líder), é o exemplo mais ilustrativo desse tipo de time. A impressão é de que o objetivo é apresentar o futebol como um esporte desinteressante, o que não poderia estar mais distante da realidade.

O curioso é que os chamados “planejamentos inteligentes”, baseados na negação das possibilidades de um jogo feito para que equipes se expressem, contam com o benefício de uma tolerância aparentemente inesgotável. É comovente o apego ao futebol de sofrimento, à estratégia concebida para entregar vitórias opacas que são apenas vitórias, mesmo quando o elenco oferece um universo de qualidades para fazer mais e conduzir o público – a razão de tudo – por experiências que deixarão memórias, sensações, não só registros. Os enamorados por esse tipo de ideia de jogo jamais a contestam quando não sobra nada.

Por outro lado, os times – infelizmente não são muitos – que se propõem a imaginar, construir e elevar o jogo vivem sob exame constante e rigoroso. Estão obrigados a vencer sempre e, quando não o fazem, provocam uma estranha satisfação em quem parece não notar que esta é uma prova de grandeza. É uma lógica perversa que não exige a vitória daqueles que só jogam por ela, mas não aceitam outro resultado dos que ousam ir além. Ao final, as escolhas sobre como jogar revelam um esporte generoso com quem o faz e quem o consome: cada um acompanha o que quer, enxerga o que pode, recebe o que merece.



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