A luz



“Eu encerro com uma história. Pela manhã, ao chegar à sala de fisioterapia, sempre foi você quem acendeu a luz. É o que você é para todos nós: a luz. Obrigado, Davide”.

Milan Badelj foi o autor do último tributo a Davide Astori, no velório realizado na Basílica de Santa Cruz, em Florença, na quinta-feira passada. Marco, irmão do capitão da Fiorentina, mal conseguiu falar, mas o meiocampista croata teve forças para completar um discurso tocante com a máxima homenagem ao companheiro que se foi. A tragédia de uma morte no futebol não é mais ou menos importante do que todas as outras que acontecem todos os dias, em todos os lugares. Apenas tem uma repercussão diferente e alcança as pessoas de maneira mais íntima, porque este jogo é capaz de reunir em harmonia até aqueles que desconhecem o significado da palavra. A verdadeira tristeza está no fato desses eventos serem tão raros.

Os clubes da Série A italiana enviaram condolências e arranjos de flores ao velório de Astori. A Juventus o fez, mas não só. No dia seguinte à vitória sobre o Tottenham, pela Liga dos Campeões, os jogadores juventinos subiram os degraus da basílica para se despedir pessoalmente. De acordo com os relatos de quem lá esteve, o aplauso de milhares de torcedores da Fiorentina aos rivais sanguíneos foi um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, junto com o hino do clube de Florença, cantado pela multidão quando o corpo de Astori foi retirado da igreja. Em um artigo primoroso para o site da ESPN, o jornalista americano Wright Thompson revelou o comentário de um colega local: “Aplausos para a Juventus, em Florença? Nunca, nunca, nunca. Hoje é um milagre”.

Para quem crê, não há outra possibilidade de compreender o que houve no primeiro jogo da Fiorentina após a morte de Astori. O gol da vitória sobre o Benevento foi marcado pelo zagueiro brasileiro Vitor Hugo, ex-jogador do Palmeiras. Ele foi o substituto do capitão falecido, jogou com a camisa 31 (o número de Astori, 13, invertido) e anotou o gol de cabeça precisamente às 13 horas. Ao comentar que Astori foi um dos companheiros que mais o ajudaram na chegada ao clube, Vitor Hugo ilustrou outro trecho do discurso de Badelj: “Mesmo sem conhecer todos os idiomas, você conseguiu falar com todos nós, falando com o coração e nos mantendo unidos. Você fala a língua universal do coração”.

Que privilégio. Um dia depois do velório de Davide Astori, as redes antissociais voltaram a exibir seu poder de divisão ao propagar a incompreensão, a intolerância e o desrespeito na direção de William De Lucca, jornalista, gay, palmeirense, que criticou a homofobia que impera em estádios de futebol. Walter Casagrande, ex-jogador, ex-dependente de drogas, corintiano, teve recepção semelhante ao se solidarizar com De Lucca. Para o tipo de ignorante que contamina a interação no ambiente online, De Lucca está em busca de promoção pessoal, e Casagrande não pode opinar por causa de seu passado. Não há surpresa alguma na constatação de que a imbecilidade é o máximo a que essa minoria barulhenta consegue chegar.

Antes do jogo de ontem, a torcida da Fiorentina apresentou um lindo mosaico em respeito a Astori. Faixas foram erguidas com mensagens sobre ele no estádio Artemio Franchi. Uma delas dizia: “Verdadeiro capitão… homem de outro tempo”. A chuva que chegou ao final das homenagens se juntou às lágrimas nas cadeiras e no gramado, instante em que até a tristeza e a beleza convivem sem atritos. Quando a luz é um milagre, a tragédia maior é a de quem fica.

GESTAÇÃO

Diego Aguirre, uruguaio, não é chamado de “técnico estrangeiro” no Brasil, talvez pela familiaridade desde os tempos de jogador. Como qualquer treinador, de qualquer nacionalidade, precisará de suporte e tempo para trabalhar. Um contrato de apenas nove meses não sugere nem uma coisa e nem outra.



MaisRecentes

Filme



Continue Lendo

Perversidades



Continue Lendo

Arturito



Continue Lendo