Sem sentido



Passou quase despercebida uma frase de Petros, volante são-paulino, após um zero a zero recente no Morumbi: “O São Paulo precisa ser campeão logo para assentar a poeira”. Compreende-se o desejo embutido de deixar de trabalhar sob ameaça constante e poder absorver resultados negativos sem a sensação de que o mundo está prestes a acabar, mas o raciocínio carece de lógica. Não se trata de criticar um jogador produtivo numa época em que não é fácil encontrá-los no clube, e sim perceber como a neurose pelo resultado influencia a leitura do que é importante. Quando se conclui que a rotina precisa da chancela de uma conquista para se tornar tolerável, ambos os objetivos ficam mais distantes, o que apenas assegura a manutenção de um ambiente tóxico e da ilusão do troféu como bálsamo.

De que título Petros estaria falando? Só há três alternativas. O Campeonato Paulista, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro são as competições que compõem o calendário do clube em 2018. O torneio estadual termina no mês que vem, enquanto os nacionais se prolongarão até o final do ano. Para ser “campeão logo”, portanto, a opção é uma só. E não há nenhuma garantia de que a conquista do Campeonato Paulista teria um papel transformador no dia a dia do São Paulo, na forma como o torcedor se relaciona com o clube ou mesmo na trajetória do time que, desde o ano passado, tenta se formar. O que resta da temporada é muito mais valioso e oferece a métrica adequada para avaliar o desempenho de uma equipe, como se pode verificar nos casos dos campeões estaduais que concluíram anos com nota baixa.

Como evidência, deve-se lembrar que último título do São Paulo – a Copa Sul-Americana de 2012 – não propiciou uma sequência de bom desempenho ou um período de calmaria, o que não pode ser atribuído à relativa relevância do torneio. A ordem dos fatores é a inversa: os trabalhos realizados pelo clube nos últimos anos não levaram a nada além daquela conquista, histórico que deveria ser suficiente para convencer a todos que a forma como o departamento de futebol é conduzido está equivocada. Menos por causa da estiagem de troféus, e mais, muito mais, pela ausência de bons times. Cobrar títulos de um clube que não produz equipes capazes de disputá-los é um contrassenso. O exemplo mais fresco é a ideia de que o time que precisou se livrar do rebaixamento no ano passado, mesmo depois de ser fragilizado pela saída de jogadores, seria candidato a alegrias em 2018.

Essa expectativa sem sentido está na origem da crise do momento, de mais uma troca de comissão técnica, de outro recomeço. E a narrativa é rigorosamente igual a todas as anteriores. Se a maneira de fazer as coisas não for alterada, responsabilidade exclusiva de quem toma decisões, é razoável supor que o São Paulo revisitará essa situação ainda neste ano. Recuperando as palavras de Petros, o que “assenta a poeira” de verdade é a construção de um time que seja competitivo em todas as ocasiões e se permita sonhar. O São Paulo falha nessa missão há dez anos.

QUE BONITO

O velório de Davide Astori proporcionou a imagem da semana: os milhares de torcedores da Fiorentina, diante da Basílica de Santa Cruz, em Florença, aplaudindo os jogadores da Juventus que chegavam para homenagear o capitão do time da cidade. A Juventus é o time que os demais torcedores italianos adoram odiar, mas isso não impediu os fãs da Fiorentina de saudar Buffon e seus companheiros. Ao redor do mundo, os cretinos intolerantes devem ter sentido extrema vergonha.

QUE FEIO

Por falar em vergonha, o futebol brasileiro se submeteu, de novo, aos desejos de Marco Polo Del Nero. As federações, pela conhecida troca de favores. Os clubes, pelo silêncio. Del Nero está suspenso pela Fifa “de todas as atividades do futebol”, conforme nota da própria entidade, mas articulou pessoalmente o caminho de sua sucessão na CBF.



MaisRecentes

Arturito



Continue Lendo

Terceirão



Continue Lendo

“Algumas tapas”



Continue Lendo