Copo vazio



A leitura da lesão de Neymar como uma espécie de bênção disfarçada, para ele e para a Seleção Brasileira, é uma fantasia. O único aspecto que pode ser entendido como “positivo” em tudo o que se sabe desde o último domingo é que – pensando apenas na Copa do Mundo – há tempo suficiente para uma recuperação completa. Fissuras, fraturas, contraturas, entorses, cirurgias e fisioterapia fazem parte da carreira de profissionais do esporte, o que não significa que sejam experiências agradáveis em qualquer aspecto, ou mesmo convenientes.

Um exemplo apropriado: a cada vez que Messi se machuca e o prazo de recuperação é estabelecido, Barcelona prende a respiração ao imaginar o período sem seu principal astro. Imediatamente se calcula quantos jogos ele perderá, quando poderá retornar e surgem interpretações otimistas, do tipo “estará descansado e forte para o trecho decisivo da temporada”. Ok, faz sentido no aspecto físico de um futebolista que não é mais um menino e poderá reservar energias para o momento do ano em que sua presença é imprescindível. Ocorre que Messi pode sair e entrar no time de forma automática, sem que seja necessária a adaptação dele ou dos demais.

A Seleção, por óbvio, está longe desse cenário. Não é um produto finalizado como equipe e deve aproveitar o tempo até o Mundial da Rússia da maneira mais enriquecedora possível. E à luz da formidável entrevista de Tite ao jornal O Globo, o técnico pretende trabalhar a formação do time com variações para superar defesas congestionadas, como se viu no amistoso contra a Inglaterra. A ausência de Neymar nos jogos contra Alemanha e Rússia, no próximo mês, é muito prejudicial a esse plano por exclui-lo de contextos táticos e de funcionamento coletivo que serão fundamentais na Copa do Mundo.

Não é possível recortar a figura de Neymar do Brasil de Tite para que o time alcance sua melhor versão. Essa separação era notável no período da comissão técnica anterior e foi um dos motivos que a levaram ao fracasso. Na Rússia, Neymar precisa ser parte de uma ideia clara para todos, ele incluído. O que só se consegue com ensaios e testes, mesmo que o tempo disponível seja mínimo. A noção de que a Seleção Brasileira se beneficiará pelo “descanso” de seu camisa 10 é nonsense puro. Ao contrário, no processo de construção da equipe, as próximas semanas serão de muito trabalho.



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