Feridas



A pior coisa que pode acontecer a um encontro rico em argumentos futebolísticos é ser rotulado pelas decisões da arbitragem, como se tudo emanasse do apito e por ele fosse explicado. Neste aspecto, as declarações do executivo de futebol do Palmeiras, Alexandre Mattos, devem ser recebidas como um remédio para a neurose que se apodera de pós-jogos como o do clássico de anteontem, normalmente dominados por posturas alheias ao que determinou, de fato, o resultado em campo. Ao dizer que “faltou um pouquinho de jogo [ao Palmeiras]” e que “não temos de falar só da situação da arbitragem”, Mattos serve ao futebol, o que é obrigação de todos os envolvidos no jogo, embora seja uma atitude rara. Em geral, num ambiente imaturo e pouco preocupado com o que é bom para todos, entende-se que o correto é apenas defender o próprio lado.

O comportamento das equipes deveria ser a preferência do debate, especialmente quando se vê algo novo – apenas no sentido de causar mínima surpresa – em um estágio tão precoce da temporada. A exigência voraz por resultados não pode estar desacompanhada da percepção de como se tenta vencer, pois esta é a fundação para a formação de times e o principal critério pelo qual devem ser avaliados. Nada foi mais importante para a vitória do Corinthians do que a maneira como seu treinador planejou a atuação, em um caso clássico de evolução baseada em trabalho. Fábio Carille identificou que a melhor solução para o problema na função de centroavante era eliminá-lo. Ao preparar o time para jogar sem essa referência, convenceu jogadores durante o processo e ensaiou uma versão do Corinthians que não se esperava ver no domingo.

Sim, com um treinamento fechado, o que não é seu costume. E sim, com a confirmação da escalação, na véspera, sem revelar as alterações de posicionamento dos jogadores escolhidos. É provável que a comissão técnica e os jogadores do Palmeiras imaginassem Romero com papel de atacante centralizado, e não aberto – com Clayson do outro lado – para permitir a movimentação de dois meias na região entre os volantes e os zagueiros. O produto mais refinado dessa configuração foi a jogada do primeiro gol, com circulação paciente até a projeção de Maycon e o lance pessoal de Rodriguinho. É evidente que houve falha defensiva, o que não diminui em nada o mérito do movimento. Ao contrário: o objetivo da combinação de passes diante de uma defesa posicionada é, exatamente, desorganizá-la. O primeiro gol é fruto de um time com mais posse e mais jogo, uma novidade que fez efeito contra um adversário de alto nível.

Cobra-se de Roger Machado um Palmeiras que deveria ter sido superior coletivamente, pela qualidade e quantidade de jogadores disponíveis. Mas não é natural que o trabalho mais antigo, em que há maior sintonia entre todos, esteja à frente de uma equipe que começa a se construir? E não é esta uma prova da necessidade de investir em tempo, em rodagem, em sequência? Mattos também disse que “o Palmeiras tem de melhorar”, o que seria verdade mesmo em caso de vitória ou empate em Itaquera, mas a questão é em que clima. Diz-se que perder este clássico gera sequelas, altera caminhos, como se fosse um vaticínio de problemas. Por quê? A única ferida deveria ser o desejo de trabalhar mais e evoluir.

A segunda pior coisa que pode acontecer a um jogo como esse é a leitura simplista que pretende relacionar o resultado à quantidade de esforço demonstrado. Em primeiro lugar, esse tipo de “diagnóstico” é baseado em impressão. Em segundo, sugere que os jogadores do time derrotado conscientemente não se entregaram ao encontro com a seriedade que deveriam. Como se fosse possível disputar um Corinthians x Palmeiras sem estar ali. Times que parecem “entender melhor a importância” de um jogo na verdade entenderam melhor o que precisam fazer. Foi o caso do Corinthians.



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