“Mais que um jogo”



Para quem se importa com as entrelinhas, as palavras do presidente da Conmebol a respeito da final da Copa Libertadores em jogo único são especialmente interessantes. “Esta emocionante disputa oferecerá um espetáculo esportivo de nível mundial e uma melhor experiência em casa e no estádio”, declarou Alejandro Domínguez, ao anunciar a mudança na decisão do torneio a partir de 2019. A ideia, aprovada sem contestações, “é uma grande oportunidade para que a América do Sul dê um salto de qualidade de infraestrutura esportiva, produção, organização, segurança e projeção mundial do futebol do continente”, acrescentou o dirigente paraguaio.

A estratégia não poderia estar mais evidente. A partida única, em campo neutro, permite a criação de um evento que talvez se aproxime daqueles em que se espelha (a final da Liga dos Campeões e o Super Bowl, mesmo que em galáxias diferentes), provocando, com sorte, a impressão de que os saltos mencionados por Domínguez representam a realidade do futebol nesta região do mundo. Não importa que seja uma imagem fictícia e, menos ainda, que a maneira como o futebol sul-americano se acostumou a viver esses momentos seja distinta, sobretudo por uma questão de identidade. Seria menos problemático organizar uma ocasião para vender a ideia de que a Copa Libertadores subiu na vida se… bem, se a Conmebol fizesse esforços para que fosse verdade.

Mas não, claro que não. O plano é envelopar a decisão em um ambiente controlado, acrescentar um sabor local de acordo com a sede, agradar os clubes envolvidos com mais dinheiro (dois milhões de dólares a mais do que em 2018, e 25% da bilheteria) e promover “um grande evento esportivo, cultural e turístico” que fatalmente estará deslocado de tudo o que se passa no torneio. Os estádios despreparados, os riscos à segurança, os gramados ruins e as arbitragens curiosas permanecerão como características marcantes da Libertadores, mesmo que a decisão pretenda apresentar um caráter evoluído. A opção pelo caminho mais simples é típica desta parte do mundo, sempre inebriada pela sedução de uma festa que afaste os problemas por algumas horas. É a reunião entre o futebol e os embalos de sábado – dia escolhido para a final – à noite.

Que não se confunda a crítica com uma defesa “dos valores tradicionais do futebol sul-americano”, como apologia da arquibancada de concreto, das dificuldades para chegar, entrar e sair, dos chutes na porta do vestiário da arbitragem e outros atrasos que ainda estão muito presentes. A questão é que a noite de gala da Conmebol inverte a ordem do que precisa ser feito para que um salto de verdade aconteça. A Copa Libertadores deve oferecer “uma melhor experiência em casa e no estádio” em todos os seus jogos, não em apenas um, e é óbvio que essa é uma transformação que não ocorre de um ano para outro. E nem é necessário salientar, por ora, as dificuldades de deslocamento na América do Sul e a injustiça de privar o torcedor de ver seu time disputar o título. Basta imaginar como seria incrível um Atlético Nacional x Tigres na Arena do Grêmio.

MALES

Sobre o Ba-Vi da vergonha, com perdão pela demora: a irresistível tendência à cafajestagem é tão danosa ao futebol quanto a síndrome do xerife. Mas o maior prejuízo é causado pela eterna relativização.

INFÂNCIA

Ainda é fevereiro… Dorival Júnior resistirá a mais uma derrota do São Paulo? Fábio Carille – campeão estadual e brasileiro – será pressionado se o Palmeiras vencer o clássico? A quem interessa esse tipo de questionamento no segundo mês da temporada? Há esperança de que o debate sobre futebol deixe o pré-primário?

SUSTO

Desde a primeira entrevista, a trajetória de José Carlos Peres como presidente do Santos sugere alguém que não está preparado para desempenhar o papel a que se propôs. Ou, pior: alguém que não imaginava estar na situação em que está.



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