Sozinhos



A individualização do futebol atingiu um pico na última quarta-feira, quando Real Madrid e Paris Saint-Germain se encontraram pela Liga dos Campeões da Uefa. Entre tantas tramas incluídas em um jogo de equipes, nenhuma foi capaz de superar a narrativa Cristiano Ronaldo versus Neymar. A figura do craque emergente que pretende desbancar a realeza estabelecida se encaixa quase que perfeitamente no enfrentamento entre o gigante espanhol e o novo-bilionário francês, mesmo que uma partida não seja suficiente para determinar qualquer coisa. O que serve como promoção acaba alimentando teses para consumo rapidíssimo, pois haverá um jogo de volta e tudo o que foi dito talvez tenha de ser desmentido.

Diante de um objetivo da importância do torneio continental europeu, a glória pessoal domina atenções na figura de um prêmio. Neymar deixou o Barcelona para ser o melhor do mundo. Neymar precisa ganhar a Liga dos Campeões para ser o melhor do mundo. Se Neymar ganhar a Copa, será o melhor do mundo. É como se o troféu entregue pela Fifa após cada temporada estivesse em sua mente em todos os treinos e jogos, em seus sonhos em todas as noites, em seu prato em todas as refeições. E é como se o objeto estivesse na lateral do campo, à vista do público, quando detentor e pretendente se enfrentam, cada um ao lado de dez companheiros totalmente alheios ao que se passa.

Nesta visão do futebol como uma disputa entre duas personalidades, a vitória do Real Madrid sugere que Ronaldo ganhou. Um gol de pênalti e outro feito com o joelho, no rebote do goleiro, podem ser revestidos como uma “atuação decisiva”, o tipo de leitura que recorta jogadores do contexto coletivo. Neymar não apareceu no placar, o que instantaneamente o envia ao purgatório e supostamente explica o fracasso francês no Bernabéu. A estatística que não revela nenhum passe trocado entre o brasileiro e Cavani (depois corrigida, pois houve um) é utilizada para traduzir seu egoísmo e o dano causado aos planos do time. Ronaldo também não se conectou nenhuma vez com Benzema, mas esse dado não tem valor para o enredo.

Pois o enredo é mais interessante do que o jogo, em que o Paris, embora tivesse controle, não gerou o suficiente para alcançar um segundo gol fora de casa. Em que a reunião de futebolistas talentosos, síntese deste Real Madrid, voltou a funcionar em uma noite crucial. E em que as decisões tomadas pelos técnicos tiveram impacto direto na forma como o resultado foi construído, com clara vantagem para Zidane. Nenhum comportamento individual pode ser apresentado como fator de desequilíbrio, mas é preciso personificar o placar ao preencher os papeis pré-estabelecidos, e, assim, reduzir o futebol.

A era do jogador-empresa depende da exploração comercial de tudo o que pode ser vendido, uma decorrência inevitável da inclusão do futebol no mundo do entretenimento. Cada pós-jogo é ocupado por análises que podem elevar o preço de ações ou desvalorizá-las até a próxima exibição. Esse parece ser o caminho do futebol dos astros planetários, em que times têm uma só face e nada escapa de sua influência, embora o jogo real jamais permita essa simplificação. Nem mesmo os melhores futebolistas do mundo, premiados ou não com o troféu que lhes fascina, são tão formidáveis a ponto de vencer sozinhos.



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