De chorar



A tragicomédia do veto ao árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro, destaque do noticiário da semana passada, parecia o exemplo mais ilustrativo da incapacidade dos clubes de se entender a respeito do que é melhor para todos. Mas não há nada como uma semana após a outra, e já temos uma versão “evoluída” que ajuda a explicar por que as coisas são como são. E aqui não cabe um debate sobre interpretações equivocadas ou informações não confirmadas: o Botafogo afirmou, por meio de uma nota oficial que redefine o amadorismo na gestão futebolística brasileira, que a comemoração de Vinícius Júnior foi o motivo da proibição ao Flamengo de alugar o Estádio Nilton Santos.

Calcule o poder destrutivo desse tipo de mentalidade em reuniões entre dirigentes para tratar de temas institucionais. Como esperar que os interesses que os unem sejam definidos e defendidos com um mínimo de visão modernizadora se o gesto de um jovem jogador, ao celebrar um gol, se sobrepõe a uma questão comercial? E nem se trata de discutir a escolha de comemoração de Vinícius Júnior, porque a direção do Botafogo não tem controle sobre essa percepção. Com efeito, ao supor que pune o Flamengo por isso, o clube multiplica a importância do que considerou um “desrespeito”. O “chororô” agora não só tem preço, como é financiado pelo próprio Botafogo. É verdadeiramente genial.

Há quem enxergue a presença saudável da paixão em posturas pueris dessa natureza. Ok, vejamos se o Botafogo será capaz de contratar jogadores e honrar seus salários com paixão. Porque a decisão tomada neste caso não faz nada além de enfraquecer a capacidade de investimento do clube, algo que não se justificaria nem se o Botafogo estivesse em condições de recusar recursos. Sem falar na obrigação negligenciada de ocupar o estádio, uma fonte de receitas crucial para o modelo em que o esporte está baseado. O futebol é pródigo em converter sensatez em desequilíbrio, mas aqueles que aceitam a tarefa de conduzir clubes não podem permitir tal transformação. O Botafogo é apenas o último a exibir o traço imaturo que está presente em tantos outros.

A nota oficial é especialmente constrangedora, uma admissão pública de irresponsabilidade. Diz que o gesto de Vinícius Júnior foi “um desrespeito à instituição Botafogo, que é representada pelos seus atletas, sócios e torcedores”. Está errado. O Botafogo é composto por seus atletas, sócios e torcedores. Quem os representa, no entanto, são dirigentes que precisam estar à altura do trabalho que assumiram.



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