A regra impossível



Na semana passada, um lance em um jogo ocorrido no campeonato inglês exemplificou uma das grandes – se não a maior – incoerências do futebol atual. A jogada do primeiro pênalti marcado a favor do Tottenham, em visita ao Liverpool, causou uma compreensível interrupção do fluxo do jogo e, simultaneamente, uma constrangedora confusão sobre a correta leitura da regra do impedimento entre torcedores, jornalistas e até ex-árbitros que ocupam funções de analistas na mídia britânica. Por sorte, a decisão em campo foi acertada, embora o desfecho do episódio não tenha tido impacto no placar, pois Loris Karius defendeu a cobrança de Harry Kane.

A quem não viu/soube: um passe de Dele Alli encontrou Kane livre na área. Ao driblar Karius, o atacante do Tottenham foi derrubado. Kane estava em posição de impedimento, mas o último jogador a tocar na bola antes dele foi Dejan Lovren, defensor do Liverpool, que tentou cortar o passe e terminou por habilitar o adversário, criando um novo lance. De pedidos para que a jogada fosse paralisada por impedimento em sua origem a compreensões equivocadas do termo “deliberadamente” (crucial para o efeito da regra), a repercussão da marcação foi caracterizada por desconhecimento das leis do jogo ou do idioma. Em campo, a conferência entre árbitro e assistente levou cerca de três minutos, tempo mais do que suficiente para que os replays na tv mostrassem o claro desvio de Lovren.

Como se sabe, o texto da regra diz que “um jogador em posição de impedimento que receber a bola jogada deliberadamente por um adversário (exceto quando se tratar de uma defesa deliberada) não deve ser punido”. Por “deliberadamente”, entende-se a clara intenção de jogar, e não, como se leu na coluna de um analista de arbitragem na segunda-feira, a intenção de fazer o passe para o adversário (o que seria uma sabotagem…). Difícil classificar o que foi mais grave: a falha técnica de Lovren ou o erro semântico de muitos que se dispuseram a comentar a jogada e a marcação do pênalti na liga mais prestigiada do mundo.

É uma situação inviável para os assistentes, que devem determinar origem, destino, posições, autoria e intenção de possíveis desvios na trajetória da bola, em pouquíssimo tempo e sem ajuda externa. Não é problemático que haja diálogo para que a decisão final seja a mais esclarecida. A questão é que o vídeo soluciona esse tipo de ocorrência em segundos, como se viu neste caso. De todas as situações do jogo em que a arbitragem precisa desesperadamente de auxílio, a lei do impedimento é, com distância, a principal. Só a imagem congelada e os diferentes ângulos de câmeras podem esclarecer as circunstâncias necessárias para sua correta aplicação, especialmente após as alterações de interpretação que a tornaram mais complexa.

Não é verdade que a relutância do futebol em evoluir nas regras mantém o esporte, global, compreensível a todos. A cada ano, um anexo ao livro das leis traz mudanças e orientações que interferem na forma como o jogo é mediado. Se árbitros e assistentes têm a necessidade de interromper jogos para estar na mesma página quanto a um lance, não há explicação para que este momento não seja aproveitado para resolver a situação com a maior probabilidade de acerto. E isso só o vídeo oferece.

OUTRO PONTO

A propósito: o tema das concussões permanece sem solução, algo que também exige a evolução da regra das substituições. Como é hoje, o futebol não permite que um jogador seja corretamente avaliado após um trauma na cabeça. Todos – atleta, médico, árbitro – estão sob a mesma pressão para que o tempo gasto seja mínimo, o que obviamente não atende ao que de fato importa. É preciso alterar a lei para autorizar a substituição temporária de um jogador que sofrer esse tipo de choque, e sua reversão caso ele possa retornar ao jogo. A medida alivia pressões e garante a igualdade numérica entre as equipes.



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