Pré-Carnaval



O futebol brasileiro já tem um técnico da Série A demitido antes do Carnaval. Não é um feito a ser subestimado. A saída de Oswaldo de Oliveira do Atlético Mineiro – clube que tenta desesperadamente se estabelecer como especialista em fazer futebol ao contrário – guarda uma diferença em relação ao manual básico de encerramento de trabalhos no país: ocorreu dois dias após o lastimável desentendimento entre o treinador e um repórter. Mas estão presentes, também, as críticas às apresentações do time neste amanhecer de temporada, o que sugere que o episódio foi usado como pretexto para puxar o plugue. Assim como em acidentes de avião, a causa nunca é uma só.

Em um plano teórico, não resta dúvida que a atitude de Oswaldo é motivo para rescisão de contrato, independentemente de ter sido ofendido. A posição de treinador é também a representação de uma instituição, e deve ser exercida de maneira respeitosa em qualquer circunstância. O problema é que, na prática, o que determina o tratamento a questões dessa natureza é o desempenho. Se o Atlético estivesse decolando, o clube jamais dispensaria seu técnico por algo semelhante ao que se viu pela televisão na noite de quarta-feira. O campo se sobrepõe aos princípios e, nele, as pessoas que tomam decisões no clube – exatamente as mesmas que, nos últimos dias do ano passado, confirmaram Oswaldo para 2018 – resolveram recomeçar.

Oswaldo de Oliveira foi um dos três treinadores do Atlético em 2017 (após Roger Machado e Rogério Micale). Que ninguém acuse o clube de incoerência, pois, na temporada anterior, se deu o mesmo (Diego Aguirre, Marcelo Oliveira e Diogo Giacomini). A julgar pela temperatura das redes antissociais, a reação das massas a mais uma demissão revela o sucesso do processo de adestramento. Nota-se o aplauso angustiado de quem já está domesticado pela insanidade, sempre com algum argumento distante, porém enfático. Contratado pela caneta nervosa de Daniel Nepomuceno, Oswaldo muito provavelmente não era o técnico certo para o Atlético, mas a diretoria que decidiu mantê-lo em dezembro dá, agora, uma amostra de sua convicção.

O fanático só sabe enxergar o que julga ser a correção de um erro (a contratação do treinador ora dispensado), vivendo a eterna esperança da escolha bem sucedida e ignorando que, no futebol, o acerto está no momento seguinte. A frequência de interrupções prova que o Atlético não tem sido um exemplo de suporte a treinadores, maneira de trabalhar que mantém a porta giratória em constante movimento. Ademais, quem entende ser possível a avaliação de um trabalho quando um time ainda deveria estar na pré-temporada colabora para a banalização do jogo. É uma cultura nociva ao futebol que Alexandre Gallo conheceu por dentro durante o período em que atuou como técnico.

Importa pouco quem será o próximo se o método não for alterado. Aguirre (cinco meses), Marcelo (sete), Roger (sete), Micale (dois) e Oswaldo (quatro) foram experimentos suficientes para que se percebesse um padrão de comportamento baseado em “futebol é resultado”, essa máxima de dirigentes populistas comprada pela arquibancada sem questionamentos. Não por acaso, não há resultado faz tempo.

VALOR

A notícia da semana, felizmente, é importante e confortante. Ederson está recuperado de um câncer de testículo, de volta às atividades no Flamengo e ao futebol. A carreira deve ser retomada entre março e abril, após um período que somente ele e aqueles que lhe são próximos podem descrever. A crescente distância entre jogadores de futebol e o público dificulta a percepção da gravidade de determinadas situações, dramáticas para todos os que precisam enfrentá-las. E ainda se perde muito tempo com o que não é relevante. Que Ederson nunca mais tenha de lidar com essa doença e desfrute do futebol e da vida com a plenitude dos que sabem o que tem valor.



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