O idiota orgulhoso



O Nacional expulsou um dos torcedores que usaram a tragédia do voo da Chapecoense para fazer provocações na Arena Condá, na última quarta-feira. A medida, uma obrigação no ponto de vista humano, é também um argumento de defesa do clube uruguaio diante da possibilidade de uma punição imposta pela Conmebol. Identificar e castigar um dos envolvidos são providências que talvez impeçam este cretino específico de reincidir, mas e os demais? Indo além: como é possível evitar que a imbecilidade encontre maneiras de contaminar o ambiente de jogos de futebol?

Veja, este é um caso distinto de violência no estádio. Frequentadores de partidas estão avisados sobre as transgressões “comuns”, ou seja, confrontos, invasões, objetos atirados no gramado, ofensas racistas, etc. A noção do que não se pode fazer não é suficiente, tampouco as punições, mas pelo menos existe um código. Ao que parece, chegamos ao ponto em que é necessário explicar a idiotas que não, não é aceitável que a morte de setenta e uma pessoas seja convertida em abuso. Ocorre que esse recurso impensável também não terá efeito, porque sempre haverá iluminados que responderão com menções ao “politicamente correto”, dizendo que “o futebol está muito chato”.

Sim, o mundo está chato. Especialmente, nesta semana, para quem tinha familiares e amigos dentro daquele avião e viu, in loco ou pela televisão, um exemplo do que a mais miserável falta de educação pode fazer. Pessoas que talvez sejam capazes de bloquear o desrespeito de alguns poucos, mas não de ignorar o sentimento provocado por eles. Aqueles que demonstrarem indignação ainda correrão o risco de ouvir que foi apenas uma brincadeira de péssimo gosto ou um epísódio que pertence ao território desgovernado do futebol, onde pessoas assumem comportamentos só ali permitidos.

Por alguns dias, depois do acidente, o mundo do futebol foi inundado por gestos de humanidade que sugeriram que a atmosfera ao redor do jogo podia ser diferente. Como se a tragédia fosse um alerta do tempo que se perde em uma relação envenenada com o que se deveria proteger. Da cerimônia organizada pelo Atlético Nacional, em Medellín, ao escudo da Chapecoense praticamente onipresente onde houvesse um jogo para acontecer, é possível recordar inúmeras ofertas de respeito e generosidade. Mas o que parecia a breve exposição do que existe abaixo de uma superfície ruidosa se revelou um espetáculo de ficção. A realidade feia, fedida, repugnante, é o que se presenciou nesta semana.

O Nacional pode divulgar os nomes e excluir de seus jogos todos os que insultaram o futebol na Arena Condá. A Conmebol pode punir o clube uruguaio – a Chapecoense informa que pedirá a exclusão do Nacional da Copa Libertadores – com rigor jamais visto. Mas, além de causar náusea em quem é capaz de raciocinar, as imagens das provocações comprovam que o dilema é mais complexo do que parece. O verdadeiro adversário é o orgulho de ser estúpido, um fenômeno que caracteriza os tempos atuais, estampado no rosto de quem acha graça na dor alheia.

REDONDA

A história das pizzas interceptadas por torcedores da Portuguesa, como protesto após uma derrota do time no Canindé, aumenta o folclore sobre o que se passa em um futebol dito profissional. E embora a ação tenha fracassado no objetivo de privar os jogadores de uma refeição pós-jogo (uma segunda encomenda entrou por outro portão), o caso expõe um dos motivos que explicam a situação em que o clube se encontra. A notícia não é futebolistas deixarem de comer pizza no vestiário por obra de torcedores contrariados, mas a escolha de “alimentação” feita pelo clube. Nada contra pizzas, obviamente, mas elas não são a melhor opção para quem precisa iniciar a recuperação do desgaste de uma partida de futebol. A interceptação, portanto, não seria um castigo, mas uma colaboração.



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