Tratamento



Não deixa de ser confortante ler/ouvir, após a estreia de um clube da Série A em umas das competições de futebol do Brasil, que tal equipe “precisa de tempo” para se desenvolver. Pode parecer uma leitura surreal, e é, mas este é o mesmo ambiente em que treinadores iniciam temporadas com o status de “pressionado”, e os programas especializados alertam que a massa de torcedores de determinado time – não importa qual – “não terá tanta paciência neste ano”. A indústria da espuma se retroalimenta, a audiência compra e o jogo sofre.

Este ciclo defeituoso estará protegido enquanto o processo de construção de times de futebol permanecer um mistério para a maioria. Um estado de coisas que não é exclusivamente produto da ausência de interesse em explicá-lo, mas, também, da ausência de interesse em conhecê-lo. Opiniões que se situam distantes do trabalho feito nos clubes ganham tração porque são recebidas e aceitas como relevantes, quando na verdade são apenas barulho, detritos, má utilização de espaços que não passam de perda de oportunidade e tempo. Um dos subprodutos da observação desinformada é a ilusão de que se pode tratar profissionalmente de um assunto sem saber do que se passa. Outro é a ideia de que é possível analisar trabalhos de comissões técnicas a partir do simples acompanhamento de jogos.

O conceito de tempo no futebol é complexo e ainda não foi decifrado, embora seja um aspecto determinante na trajetória de equipes. Quando se relaciona a duração da montagem de um time e o que ele apresenta em campo, é necessário oferecer argumentos que revelem o nível de informação que sustenta essa afirmação e as premissas nas quais ela se baseia. Motivo pelo qual dizer que um técnico “já teve tempo suficiente para mostrar resultados” é uma alegação quase sempre arriscada, especialmente se trouxer como base o desempenho de outro treinador, em outro clube, que trabalha com outras pessoas, em outras condições. A sugestão de que o jogo é um software e futebolistas são equipamentos instantaneamente programáveis é um enorme equívoco.

A disseminação do desconhecimento não interessa a ninguém no ecossistema do futebol. É danosa aos clubes, aos componentes das comissões técnicas, aos jogadores de todos os níveis, e, ainda que a impressão seja outra, até aos dirigentes responsáveis pela tomada de decisões. Não deveria interessar a quem consome futebol por qualquer via, mesmo que pareça um passatempo divertido com temas sem importância. O jogo ocupa um espaço nobre na vida de muita gente, e, como tal, merece um tratamento melhor.



  • Alexandre Rodrigues Alves

    Bom, temos um exemplo na própria ESPN Brasil. O programa de táticas com o Renato Rodrigues e que o próprio André participa com o Calçade é relegado a internet. Enquanto isso na TV temos programas que ficam perguntando se o técnico tal está “no bico do corvo” depois de uma derrota. Fica difícil criar uma cultura de futebol quando o nível da discussão é tão rasteiro quanto esse. Quem é jornalista deveria pensar em promover mais a qualidade no que se fala sobre o jogo.

  • Gustavo Eu

    Excelente texto, está muito difícil assistir aos programas esportivos de uns tempos para cá – não sei se piorou ou por eu estar no meio científico cada vez mais não aceito ler/ouvir/ver esse tipo de abordagem sobre qualquer assunto . Talvez seja um ciclo vicioso de luta por audiência e demanda por “sensos comuns” e simplismo. Isso acontece em todas as dimensões, o conteúdo sério, complexo, profundo, fundamentado, o conhecimento científico, o raciocínio crítico, entre outros, são absurdamente relegados enquanto o que impera é o senso comum, o simplismo, a levianidade, etc etc. No meio de toda essa situação encontro a luz em trabalhos como o seu e o do Tostão.

  • Lucas Dias

    Infelizmente tenho que concordar. É o costume de imediatismo. Apenas o imediatismo do brasileiro de querer todas as soluções na hora. Como um gol em jogada ensaiada ou sem querer contra. Resolvendo tudo.

  • Igor Oliveira

    Concordo com tudo e com os comentários abaixo/acima

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