Jogo autoral



Fernando Diniz recebeu um telefonema de Mário Celso Petraglia no dia vinte e nove de dezembro. Foi o primeiro contato entre eles. Após cerca de uma hora de conversa, Diniz se sentiu como se tivesse falado com alguém que fizesse parte de seu círculo mais próximo, tal era a sintonia de ideias entre o técnico e o presidente do conselho deliberativo do Atlético Paranaense. Embora não represente nenhuma garantia, essa é a fundação do relacionamento entre eles e o passo definitivo para a contratação anunciada anteontem.

Na aparência, e à distância, é natural a sensação de um compromisso arriscado. O tipo de futebol que Diniz prega exige mais tempo de implantação do que o da maioria dos treinadores, e Petraglia não tem exatamente a imagem de um paciente tomador de decisões. Mas essa é uma impressão decorrente do mínimo acesso a um dirigente que faz questão de controlar o fluxo de informações a seu respeito, um administrador que se incomoda mais com a falta de soluções do que com resultados de jogos. O imediatismo foi um dos temas da conversa, na qual Diniz ouviu que teria a compreensão e a proteção que necessita.

Enquanto foi técnico do Audax, Diniz recusou dezoito propostas para sair. Ao contrário do que se imagina, não foi por desconfiança em seus métodos ou receio em relação a seu temperamento que um grande clube não o contratou. Diniz deu sua palavra a Mário Teixeira, proprietário do clube de Osasco, de que não o abandonaria. Nove meses sem trabalhar o convenceram a não mais fazer promessas dessa natureza, decisão mencionada ao presidente do Guarani, Palmeron Mendes Filho, na ocasião do acerto. Havia acordo, por escrito, que uma oportunidade na Série A poderia levá-lo do Brinco de Ouro, como aconteceu.

Nenhum clube brasileiro possui estrutura semelhante ou investiu tanto em conhecimento científico aplicado ao futebol como o Atlético Paranaense. O salto que falta é a conversão dessa excelência para dentro do campo, o que dificilmente acontecerá com a reprodução pura e simples do que se pratica nos clubes de vanguarda na Europa. O Atlético deve utilizar o aprendizado para desenvolver uma maneira particular de fazer futebol, o que dá sentido à contratação de Diniz. Um técnico que propõe jogo autoral em um clube no qual as condições para respaldá-lo estão presentes.

A conversa telefônica entre Petraglia e Diniz precisará ser exercitada no dia a dia e lembrada nos momentos difíceis, que sem dúvida estarão no caminho. O teste que está para começar não vale só para o técnico, mas para todos os envolvidos, especialmente o torcedor atleticano.



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