Futebol mágico



O tweet do ex-atacante norueguês Jan Aage Fjortoft (jogou a Copa de 1994 e foi parceiro de Juninho no Middlesbrough) surgiu na timeline na última quarta-feira, gerando, como é frequente, uma torrente de admiração e dramas de interpretação: “Era uma vez um campeonato chamado Bundesliga. Torcedores ingleses a chamavam de ‘liga do Mickey Mouse’, porque um clube chamado Bayern, com o rei Pep, disparou para ganhar o troféu antes do Ano Novo. Agora, o rei Pep do Manchester City dispara na Premier League antes do Ano Novo. O que aconteceu com o Mickey Mouse?”, provocou Fjortoft, hoje comentarista em seu país. Os quinze pontos de vantagem do City na liga que é considerada a mais competitiva do mundo têm se mostrado um desafio para as concepções de tanta gente que gosta de se ocupar com o futebol.

Uma parte significativa das respostas ao tweet tratou de lembrar seu autor que o Bayern conquista o Campeonato Alemão “em quase todos os anos” – o clube caminha para o sexto título seguido, que seria o oitavo nas últimas onze temporadas -, um cenário que não se aplica à Premier League. Também houve menções automáticas, e tolas, ao poderio financeiro do Manchester City. Como se o argumento do que foi escrito tivesse qualquer relação com esses aspectos. Neste caso, aconteceu o encontro do analfabetismo voluntário que caracteriza as redes antissociais com o analfabetismo futebolístico que impede o debate. E estamos falando de uma audiência predominantemente europeia, o que poderia causar uma sensação de alívio, mas, na verdade, apenas aumenta o desânimo.

Fjortoft se refere ao “como”, não ao “o quê”. E o fato de algo tão óbvio escapar a tantos revela a incapacidade de enxergar o verdadeiro presente do futebol. Como já se escreveu, as pessoas sem ideais são quantitativas; podem apreciar o mais e o menos, mas nunca distinguem o melhor do pior. Por essa razão, o Manchester City apresenta um quadro que não lhes diz nada além de pontos conquistados em sequência, o que só pode ser explicado pelo tipo de devaneio que levou José Mourinho, técnico do clube mais rico do mundo, a reclamar mais dinheiro para poder competir com um adversário que ele quase não consegue ver. Às vezes, a maneira menos incômoda de conviver com um problema é atribui-lo a razões que julgamos conhecer, ainda que a solução pareça inalcançável. Mesmo assim, não deve ser fácil.

A distância do primeiro para o sexto colocado na Premier League é de vinte e um pontos. Do sexto para o décimo-sétimo, dezenove. Ao construir o melhor desempenho (dezenove vitórias, um empate) nas primeiras vinte rodadas em toda a história das cinco maiores ligas da Europa, o Manchester City é o time que mais fez gols (61) e o que menos sofreu (12) na Inglaterra. Novamente, quase todos conseguem detectar números, mesmo que não possam identificar o jogo que os produz. Disse-se, sobre o tipo de futebol pregado por Pep Guardiola, que ali não se poderia vencer sem concessões às virtudes de um campeonato superior. Algo na linha paródica de “será que Messi seria capaz de jogar em um campo enlameado, numa noite fria em Newcastle?”. As fantasias terão de ser reescritas junto com os registros de recordes.

Voltando ao tweet de Fjortoft, qualquer campeonato está arriscado a ser a ‘liga do Mickey Mouse’ diante de um time capaz de reduzi-la. A ignorância está em querer reduzir campeonatos por causa da existência de um ou dois grandes clubes. E não se trata de quem será campeão, ou quantas vezes, porque todas as ligas do mundo são vencidas por alguém em todos os anos. A questão é como se vence, com quais argumentos, e que sensações ficam ao longo do caminho. Nesta temporada, torcedores em Manchester estão descobrindo o que já se conhecia em Barcelona e em Munique: o inesquecível sabor de ter uma ‘liga do Mickey’ para chamar de sua.



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