Guilty



Os vereditos foram anunciados quando já se imaginava que o dia terminaria no Tribunal Federal do Brooklyn, em Nova York, sem que o julgamento do “caso Fifa” tivesse um desfecho antes do Natal. Mas, ao que parece, os doze jurados não estavam dispostos a passar as festas pensando em mafiosos do futebol sul-americano. Pelo menos não em relação aos réus sobre os quais pesava o maior número de acusações feitas pelo governo dos Estados Unidos. Ontem, na conclusão dos trabalhos, ainda faltava a decisão sobre o peruano Manuel Burga, acusado de apenas um crime (conspiração para formação de organização criminosa). O júri voltará a se reunir na próxima terça-feira.

Para o paraguaio Juan Ángel Napout e o brasileiro José Maria Marin, o julgamento chegou ao fim com a certeza de que passarão os próximos anos encarcerados em uma prisão federal americana. As sentenças serão anunciadas apenas em 2018. Napout foi considerado culpado de três crimes (eram cinco acusações); Marin, de seis (sete). Ao se declarar inocentes e enfrentar o Departamento de Justiça dos EUA diante de um júri popular, ambos sofreram uma goleada muito mais penosa do que jamais experimentaram em suas carreiras como dirigentes de futebol, mesmo porque, como restou provado, o jogo sempre foi para eles apenas um mecanismo de enriquecimento pessoal. Na prisão, descobrirão que as fortunas que amealharam não lhes proporcionará conforto.

Marin e seus advogados levaram 6 x 1 dos promotores do caso: condenações por conspiração para formação de organização criminosa, fraude financeira (Copa América, Copa Libertadores e Copa do Brasil) e lavagem de dinheiro (Copa América e Copa Libertadores). Os jurados absolveram o ex-presidente da CBF do crime de lavagem de dinheiro relativo à Copa do Brasil. Embora a derrota no tribunal tenha sido humilhante, a defesa de Marin merece ser condecorada pelas consequências de sua estratégia: a caracterização do ex-político e ex-cartola como um fantoche de Marco Polo Del Nero não só colaborou para sua prisão, como também complicou a situação de seu sucessor, suspenso pela Fifa. Um desempenho histórico.

Del Nero e Ricardo Teixeira são acusados dos mesmos crimes que levaram Marin ao encarceiramento imediato (apesar dos argumentos da defesa, a juíza Pamela Chen ordenou o transporte dos condenados ao presídio). A diferença entre eles é que Marin foi preso em Zurique, em maio de 2015, enquanto o Marco Polo que não viaja e o Dr. Ricarrrrrrrrrdo não saíram do Brasil, país que não extradita seus cidadãos. A conclusão do julgamento em Nova York obriga a Fifa a banir Del Nero do futebol e deixa a Justiça brasileira em posição extremamente desagradável. A inédita condenação de um alto cartola do futebol brasileiro foi obra de investigadores, promotores, juízes e doze membros do público de outra nação.

Fosse o final de um desses filmes de tribunais, a imagem de Marin sendo retirado do recinto por dois policiais seria uma das poucas sequências lógicas de um enredo quase inverossímil. Del Nero, o cartola hoje impedido de entrar no prédio que tem o nome de um hóspede do sistema carcerário americano, elegeu-se na CBF prometendo “continuidade administrativa” após uma gestão criminosa. Protegido por uma legislação desprovida das normas anti-máfia que vigoram nos Estados Unidos, ele segue sendo tolerado pela estrutura do futebol brasileiro, formada, de maneira geral, por réplicas disseminadas nos clubes e federações. Não há perspectiva de mudança.

Marin pediu para voltar a seu apartamento na Trump Tower e ir à missa no dia de Natal. A juíza Chen concordou com os argumentos da promotoria de que havia risco de fuga. Pouco mais de dois anos e meio depois da operação do FBI no Baur au Lac, o fim da linha chegou, mas só para ele. Tudo segue rigorosamente igual no futebol no Brasil, exposto ao ridículo no dia em que a justiça venceu.



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