Coleta



A diferença de investimento, tão gritante quanto a distância técnica entre o campeão da Europa e o campeão da América, é um argumento automático antes, durante e depois do momento em que se encontram. Antes, para justificar a postura de pequeno contra grande em campo. Durante, para encontrar satisfação em qualquer detalhe. Depois, para explicar o que se deu. A partida se converte em uma experiência na qual se pretende acreditar na fábula do futebol, em que sempre haverá uma chance para quem a perseguir com fé, embora tudo se resuma a como se joga este jogo.

No caso de Real Madrid e Grêmio, a fábula está na incompatibilidade entre o relatório de estatísticas e o trabalho dos dois times. A ficha sugere que não houve jogo: 20 x 1 em finalizações, 7 x 0 nas que foram no alvo. O que há para se estranhar é o fato desses números terem produzido apenas um gol, e em cobrança de falta que passou por uma fresta na barreira e decidiu o Mundial de Clubes da Fifa a favor do conjunto espanhol. Mas a bola em movimento sempre conta a verdade, e o que se viu foi uma disputa por controle. Do Real Madrid para com o Grêmio e do Grêmio para com a forma como seria visto quando tudo terminasse.

Seis anos atrás, o Barcelona ofereceu aos pretendentes sul-americanos o retrato do que deve ser evitado a qualquer custo. Uma “decisão” que não alcança meia hora, um choque de praticantes de modalidades diferentes exposto ao mundo como um espetáculo bizarro. Desde então, aquele jogo tem sido o parâmetro para uma calibragem sarcástica: olha-se para o encontro da vez com teses sobre a possibilidade de acontecer de novo. E por mais que os envolvidos lidem com aspectos totalmente distintos, essa percepção os acompanha durante todo o tempo. Um a zero, com um gol de bola parada, permite um sentimento de dignidade ao Grêmio e a qualquer time que estivesse nessa posição. Mesmo sem preencher a coluna das finalizações certas.

De fato, permite até a ousadia de pensar que se Lucas Barrios não tivesse se mexido, o zero a zero sobreviveria até os últimos minutos, quem sabe até o final da prorrogação, e o futebol puniria o Real Madrid com um desses gols em que a bola parece ter olhos para encontrar seu caminho. Não, não seria assim, mas a certeza do torcedor está sempre acima da discussão razoável, aquela em que se nota como Casemiro, Kroos e, especialmente, Modric, determinaram tudo. Neutralizar o Grêmio não exigiu uma atuação brilhante do bicampeão europeu, um time que ilustra perfeitamente o valor do talento.

Ao final, em um jogo com explicações preconcebidas, a indagação sobre a ausência de um plano para ganhar é respondida com o temor do que tal devaneio pode causar. E conduzir a noite até os limites do acaso passa a ser não só uma estratégia defensável, mas talvez a única maneira de sair desses encontros em pé, como Keylor Navas, que só encostou na grama para defender um cruzamento no segundo tempo. A cada ano, o Mundial de Clubes se afasta mais da disputa de um título. É um evento em que um dos times apenas aparece para coletar o troféu.

VOTO DE POBREZA

Enquanto o Manchester City segue exibindo um tipo de futebol jamais visto na Inglaterra e reduzindo adversários a rascunhos de equipes, o cômico argumento do “voto de pobreza” de Pep Guardiola ganha tração. Além de ser o único treinador do mundo de quem se exige a Liga dos Campeões todos os anos, pede-se que Guardiola dirija um clube de baixo orçamento para provar sua capacidade. É mais ou menos como querer que Lewis Hamilton seja campeão na Fórmula 1 guiando uma Sauber. Ou que Michael Phelps ganhe medalhas de ouro olímpicas nadando de calça de moletom e galochas. Em qualquer modalidade, os melhores trabalham com as melhores condições e em parâmetros semelhantes. A questão é o que, e como, cada um faz com o que tem.



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