Invasões bárbaras



Foi Márvio dos Anjos, editor de esportes do jornal O Globo, quem melhor descreveu a terrível viagem da Copa Sul-Americana no intervalo de um ano: “(…) saiu do espetáculo de humanidade de Medellín para com a Chape e chegou na canalhice pela vitória-a-qualquer-custo no Rio.”, escreveu o jornalista em seu perfil no Twitter. A mensagem, anterior aos horrores que se apoderaram do Maracanã antes e depois do empate entre Flamengo e Independiente, referia-se ao foguetório diante do hotel onde o time argentino se hospedou. “Não se aprende nada”, concluiu Márvio. Fato. Não se chega nem perto de aprender qualquer coisa.

O sujeito de baixa contagem neuronal – independentemente de origem, ocupação, nível educacional e time escolhido -, aquele que sabe utilizar as redes antissociais, mas tem enormes dificuldades para pensar, sempre cospe uma resposta cretina para tudo. No caso, tratou-se de um rastejante argumento de “reciprocidade” ao que se passa com clubes brasileiros quando jogam na Argentina e com seus torcedores nos estádios daquele país. Foge a esse tipo de “raciocínio” a noção de que nada é pior do que ser igual ao que deploramos. E que qualquer pessoa que deseje ser respeitada tem a obrigação de ser superior ao desrespeito. Certamente são conceitos complexos.

As invasões ao Maracanã em jogos do Flamengo são eventos recorrentes, e, como tais, não podem ser interpretadas como manifestações do destino. Há inúmeras circunstâncias em ação, a falência do Estado entre elas, mas – assim como no foguetório – a ideia de que o futebol é um território em que não existem normas está evidente. Não é tolerável que se pense que todos os tipos de comportamentos são permitidos em estádios, começando por quem diz a crianças que ali se pode ofender, mas não em outros lugares. Ademais, o Maracanã recebeu a final da última edição da Copa do Mundo, o que exclui a desculpa de que há defeitos estruturais que impedem operações para controle de acesso, obrigatórias em jogos como o da última quarta-feira.

O futebol exacerba a violência de uma sociedade doente, em que ganhar é mais importante do que tudo. O Flamengo não foi capaz de ser um time (porque a diretoria impediu a construção) durante todo o ano, mas tem de ganhar. Reinaldo Rueda está trabalhando há quatro meses, mas tem de ganhar. Os jogadores mais capazes fazem parte de um coletivo que não funciona, a linha defensiva joga muito próxima à própria área, os adiantados se distanciam demais… Mas o Flamengo tem de ganhar porque o alto investimento ilude quem não compreende como o jogo funciona, em um processo que garante a frustração, a eleição de culpados, as mudanças que atrasam projetos.

A obsessão pela vitória é tamanha que um goleiro permaneceu em campo após perder a consciência e houve quem aplaudisse, incapaz de perceber o risco. E não, que não se responsabilize o médico, porque a decisão não pode ficar nas mãos de alguém sob todas as pressões – mais ainda em uma final – para que o espetáculo prossiga, e rápido. É imperativo que se estabeleça a regra em vigor na Premier League inglesa, obrigando a substituição imediata de um jogador que perde os sentidos. É a única forma de proteger futebolistas de acordo com as atuais regras do jogo. César teve sorte, felizmente. Mas, como escreveu Márvio, não se aprende nada.

SUSPENSÃO

Marco Polo Del Nero é um fenômeno. Alcançou o feito de ser julgado em Nova York sem sair do Brasil e foi suspenso por noventa dias pela Fifa. Agora não pode nem entrar na sede da CBF, que tem o nome de seu antecessor, acusado de sete crimes pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e aguardando a decisão dos jurados. Enquanto isso, o coronel Nunes lidera o futebol brasileiro, sob o silêncio dos clubes e o som do esfregar das mãos dos presidentes de federações. Os políticos do esporte no Brasil são insuperáveis.



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