Relíquia



O tesouro descoberto pelo diário Marca é capaz de encantar e, ao mesmo tempo, desafiar a imaginação: uma conversa boêmia entre Telê Santana e Johan Cruyff, que incluiu um pacto de fair play e futebol jogado com honra na decisão da Copa Intercontinental de 1992, entre São Paulo e Barcelona. Na memória do ex-árbitro argentino Juan Carlos Loustau, foi um encontro de dois defensores do jogo, no sentido mais puro. “Falavam de futebol como se fosse algo sagrado. Diziam que interromper um jogo por causa de lesões fingidas, esconder a bola ou fazer uma substituição para ganhar segundos não era válido”, disse Loustau ao jornal espanhol.

Telê deveria ser lembrado como o maior nome da história do São Paulo. Sim, mais importante do que os jogadores, sejam quais forem, que surgem em sua mente ao ler essas linhas. Mas é compreensível que um técnico, embora seu impacto na vida de um clube seja imensurável, não gere a idolatria que merece. Cruyff é a figura mais relevante do futebol mundial nos últimos quarenta anos, incomparável em biografia e serviços prestados à evolução do jogo. Naquela noite, há vinte e cinco anos, as obras de ambos não estavam concluídas, o que não diminui em nada a riqueza da conversa que tiveram diante de um observador privilegiado. “Foi a coisa mais enriquecedora que o futebol me deu”, contou Loustau.

Sobre o que mais eles falaram durante quatro horas de papo no lobby de um hotel de Tóquio? Só Loustau, talvez o maior beneficiário do acordo de cavalheiros entre os dois treinadores, pode dizer. Telê morreu em abril de 2006; Cruyff, em março do ano passado. Loustau tem setenta anos e ao que tudo indica jamais falou publicamente sobre um encontro que não seria possível nos dias atuais, ou ao menos não aconteceria sem diversas testemunhas e repercussão quase imediata. As delegações dos clubes e o trio de arbitragem de uma decisão internacional, hospedados no mesmo hotel, aos olhos e ao alcance de todos. Em 1992, será que alguém fez uma foto de dois Yodas combinando um jogo limpo na disputa de um título?

Loustau se lembra que Telê e Cruyff usaram as mãos direitas para celebrar como seria o comportamento de cada time na partida, e o brasileiro lhe pediu que também participasse da ocasião. No primeiro tempo, uma entrada mais bruta de Ronaldão deixou Hristo Stoichkov deitado no gramado por alguns minutos. O lance é tido como o propulsor da vitória do São Paulo por 2 x 1. Cruyff reclamou da dividida limítrofe, Telê não aprovaria se fosse falta. Loustau não precisou apitar.



MaisRecentes

Em voo



Continue Lendo

Não estamos prontos



Continue Lendo

Ferido



Continue Lendo