Mudar o meio



Em agosto, durante a gravação do programa Roda Viva, da TV Cultura, Raí foi questionado sobre quando reuniria sua experiência como jogador de futebol com o conhecimento adquirido em administração esportiva, assumindo uma posição em que pudesse colaborar diretamente para o avanço deste ambiente. A resposta foi, de certo modo, evasiva. O ícone são-paulino expressou o que a maioria das pessoas já sabia: naquele momento, suas prioridades eram o trabalho na associação Atletas pelo Brasil, na Fundação Gol de Letra e a conclusão de sua graduação no Mestrado Executivo da Uefa para jogadores. Raí também lembrou que era membro do conselho de administração do São Paulo, sem afastar a possibilidade de, um dia, ter uma participação mais ativa no clube em que se tornou ídolo.

Esse dia foi ontem, quando Raí foi apresentado como diretor de futebol, prova de que ele entende que a hora de agir finalmente chegou. Uma decisão corajosa mesmo para quem possui todos os atributos para esse tipo de trabalho, embora as possibilidades não sejam generosas. Uma trajetória teórica de carreira como executivo de futebol para Raí teria como destino final a presidência da CBF, quando/se existirem as condições para que alguém como ele seja candidato. No nível de clubes, exceto uma experiência fora do Brasil que não parece lhe interessar, o São Paulo é o único lugar em que ele poderia dar o primeiro passo. Um dos problemas é que esta é a administração que tratou Rogério Ceni – um astro são-paulino da mesma ordem de grandeza – com a frieza e o desdém de quem não se importa com os verdadeiros legados.

É natural que o nome de Raí seja recebido com certa apreensão. A presença como protetor de um presidente que se habituou a colecionar diretores de futebol, associada à forma como Ceni foi dispensado, indica o risco de suas ideias e suas intenções se tornarem vítimas (ver: Flamengo, Zico, Patrícia Amorim, 2010) da política e do forno de vaidades permanentemente ligado nos clubes brasileiros. O São Paulo tem dado sinais de enxergar uma estrutura profissional de futebol como necessária, mas, no fundo, a rotina da tomada de decisões é caracterizada pelo mesmo amadorismo que impera desde sempre no país. É precisamente por isso que a chegada de Raí ao trabalho do dia a dia deve ser encarada como uma oportunidade relevante não só para ele, não só para o São Paulo, mas para o futebol no Brasil.

O que se pretende para o jogo que ocupa um espaço tão caro na vida de tanta gente? Que continue a ser um ambiente refratário a pessoas sérias, que não tenham planos de se servir de um meio não regulamentado? Um “negócio diferente”, para o qual é preciso “ter estômago”? No âmbito que o aguarda, Raí não é um produto do meio e tem a chance de ser um agente de mudança. Ex-jogador com vivência internacional e dotado de capacitação acadêmica, ele representa o atleta que se preparou para exercer funções para as quais a carreira como esportista não é suficiente. É um símbolo. A estrutura existente se esforçará para repeli-lo, pois é alérgica ao progresso. O próprio clube, contaminado, apresentará dificuldades que Raí sempre soube que encontraria, mas só agora decidiu enfrentar.

CASO FIFA

A apresentação de uma conta bancária em nome de uma empresa de José Maria Marin como destino de propinas pelos direitos da Copa América complicou a situação do ex-presidente da CBF. Os depósitos feitos por uma empresa de Wagner Abrahão, antigo parceiro de logística da confederação, aconteceram em 2013, quando Marin era o presidente da entidade. A origem foi a Torneos y Competencias, negociadora dos direitos. Os promotores americanos ainda mostraram que a conta foi movimentada para pagamento de despesas pessoais, comprovando não apenas o caminho, mas a utilização do dinheiro. As provas desafiam os argumentos da defesa de Marin no julgamento em Nova York.



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