Cartolagens



O Corinthians errou com Pablo. E feio. O que não significa que o zagueiro campeão brasileiro em campo não tenha errado com o Corinthians. São questões que não se excluem. Mas a resposta do clube foi desproporcional, independentemente da conduta de Pablo e de seus representantes durante as negociações contratuais. Não é necessário entrar em pormenores e excessos que porventura tenham sido cometidos para afirmar que, independentemente do que ocorreu, privar um jogador de participar de uma ocasião à qual ele pertence, por mérito, é um abuso. De autoridade, de pequenez, de imaturidade até.

Especialmente porque a decisão de não aceitar as solicitações feitas pelo agente de Pablo, a julgar pelas informações que se tornaram públicas, é inatacável. O Corinthians pode providenciar um companheiro para Balbuena sem comprometer seu orçamento ou causar um desequilíbrio interno, e está em seu pleno direito ao encerrar as conversas, abrindo as portas para que o jogador siga sua carreira em outro lugar. Determinar sua ausência das rodadas finais do Campeonato Brasileiro pareceria excessivo, mas, ainda assim, é uma prerrogativa do clube. Excluir Pablo não só da partida de comemoração do título em Itaquera, como também da fotografia com o troféu, é um gesto autoritário típico de quem se considera proprietário do distintivo.

A “sorte” da direção do Corinthians é que houve companhia no departamento de cartolagens nos últimos dias. O Flamengo, quem sabe por solidariedade, ofereceu um episódio tragicômico por causa do treino do Sport no Ninho do Urubu. Consta que há risco de motim entre vice-presidentes, escandalizados com a presença de um “inimigo” de trinta anos nas dependências do clube. Além do comportamento de fanáticos de redes antissociais, o episódio revela que o tema do título brasileiro de 1987 é mal resolvido dentro do próprio Flamengo. Onde não deveria haver dúvida sobre a conquista, também não deveria haver ressentimentos com o clube pernambucano.

Mas essa é uma questão menor, que evidentemente está relacionada ao ambiente político do Flamengo e à proximidade das eleições. O que espanta é a facilidade com que se perde a oportunidade de ser cordial (embora o treino tenha se realizado no CT rubro-negro, por autorização do presidente Eduardo Bandeira de Mello). Parece utópico que clubes brasileiros um dia venham a se relacionar como sócios em todos os aspectos que ficam do lado de fora do campo. Essas instituições operam em um ambiente de mercado em que existem diversos interesses comuns. Para acessá-los de maneira coletiva, um espírito de relacionamento é o mínimo necessário, desde que as pessoas encarregadas de dirigir os clubes não se deixem corroer por tolices.

E é disso que se trata, nos dois casos. Tolices. Pablo foi barrado na festa do título que ajudou o Corinthians a conquistar. E um treino de um time que nem rival do Flamengo é – e, se fosse, não deveria fazer diferença – causou uma crise no clube. Obviamente não é difícil encontrar quem aplauda, e talvez o maior problema esteja aí.

SHOW

Otero deu um espetáculo no empate do Atlético Mineiro com o Corinthians. No primeiro tempo, um lindo gol em cobrança de falta. No segundo, logo antes de bater o escanteio que originou o gol de Fred, ele tentou um gol olímpico do lado direito, de pé trocado. Chute forte, rasante e com efeito, obrigando Cássio a intervir. Há um motivo pelo qual lances como esse são raros: a habilidade para bater assim na bola é igualmente rara.

HORROR

Nas cenas tristes do jogo que não terminou em Campinas, a imagem mais danosa ao futebol: crianças em pânico, aterrorizadas e quase que certamente arrependidas. A esperança de que nenhuma delas tenha se ferido fisicamente é a prova da tolerência que permite a repetição desses eventos. Acostumamo-nos ao alívio por escapar do pior, como se isso nos isentasse de alguma forma.



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