Vá estudar



No país em que se pensa que todo técnico com passaporte diferente é igual, há outro rótulo ignorante em uso cada vez mais frequente: o “treinador estudioso”. Não se trata do profissional que pretende dirigir equipes sem ter jogado futebol (ou, em outros termos, sem ter “chupado laranja com ninguém”, estigma que certamente fere os sentimentos de alguém como Arrigo Sacchi, criador de um dos times mais espetaculares da história que não, não chupou laranja com ninguém), mas do técnico que não só faz questão de acompanhar a evolução do jogo, como também faz questão de falar sobre isso. O falar incomoda mais, pois alimenta a antipatia dos que não conseguem compreender.

Roger Machado é um desses técnicos cujas derrotas são festejadas por quem alcança a capacidade de associar o desejo de aprender a qualquer conotação negativa. E no Brasil, ainda por cima, onde boa parte dos dramas tem origem no fato da educação, sob o ponto de vista acadêmico, ser um privilégio. O técnico “que estuda” é um problema porque “fala difícil”, “acha que sabe mais do que os outros”, ou – e aí vem o que há de pior – “não dá valor ao aspecto humano do futebol”, esse conjunto de sacramentos defendido por fundamentalistas como se o jogo fosse uma religião. Essa imagem, falsa da primeira à última letra, é projetada sobre a carreira de técnicos como Roger por quem não tem a mínima familiaridade com o processo de montagem de equipes. É bizarro.

Daí a impressão, reforçada por análises corrompidas pela preguiça, de que um clube está fazendo um movimento arriscado ao contratar um técnico com esse perfil. E o ciclo que atribui os primeiros resultados frustrantes, estágio quase obrigatório em trabalhos que começam do nada, à idade ou às “carências” (de experiência, de malandragem, de títulos…) dele. A informação de que Roger pediu um “seguro de campeonato estadual” ao Palmeiras, uma garantia de que não será dispensado caso o clube não conquiste o Campeonato Paulista, é umas das faces dessa insanidade. Pois há quem ache, mesmo, que “futebol é bola na rede e o craque decide”, e que essa conversa sobre conceitos e ideias está “acabando com o jogo que amamos”.

Mas o cenário é mais grave. É triste que não se perceba que todo e qualquer trabalho no futebol brasileiro é uma aventura prestes a acabar mal, independentemente do nome, da data de nascimento, da história como jogador, do currículo como treinador… Esse culto ao aleatório é aceito como uma característica imutável, uma imposição do ambiente. E embora de vez em quando discursos aparentemente menos primitivos criem a ilusão de uma administração que respeite o jogo, as fogueiras de vaidades dos clubes se encarregam de reordenar as prioridades, colocando o resultado antes das fases que deveriam gerá-lo e banalizando a palavra “planejamento”. A loucura é tamanha que não há mais técnicos que não tenham rejeição, seja onde for.

A indústria da interrupção de equipes tornou cada vez mais difícil a escolha por um treinador, e há mais clubes do que técnicos dispostos a suportar essas condições. Alguém como Roger Machado não terá sucesso enquanto não puder, de fato, trabalhar. Um desejo quase tão básico quanto o de estudar.

LIBERTADORES

A mudança de postura do Grêmio no segundo tempo, pressionando em posições altas e impedindo o Lanús de avançar com jogadores próximos, levou a conclusões do tipo “os argentinos vieram para empatar”, como se todo jogo de Copa Libertadores entre clubes desses países seguisse o mesmo roteiro. Provavelmente porque não se notou, na primeira parte, o Lanús fazendo a bola circular com linha de três, dois meio-campistas centralizados e cinco jogadores adiantados, dois deles quase sobre as linhas laterais estendendo o campo ao máximo. Acontecerá de novo na partida de volta da decisão, que tem tudo para ser tecnicamente ótima, como em Porto Alegre.



MaisRecentes

Vencedores



Continue Lendo

Etiquetas



Continue Lendo

Chefia



Continue Lendo