É do Carille



Quando o Corinthians conquistou o Campeonato Paulista, em maio, uma coluna publicada neste espaço tinha exatamente o mesmo título. O argumento do texto era a influência do técnico do time na campanha do troféu estadual, um título que a cada ano tem menos valor esportivo, embora mantenha um papel determinante na sequência – ou no encerramento – de trabalhos. Ao levar o time à conquista no primeiro semestre, Fábio Carille ganhou tempo e confiança não só para a comissão técnica que ele representa, mas também para o grupo de jogadores dos quais se esperava pouco em um 2017 que terminará com a celebração do campeonato mais importante do país.

Em dias de congratulações sinceras e elogios vazios que pretendem camuflar o descrédito e até o desrespeito pessoal, é necessário parabenizar Carille pela maneira digna com a qual ele comandou seu time durante o ano. Um técnico de futebol estampa os valores do clube no qual trabalha e tem – ou ao menos deveria ter – responsabilidades institucionais das quais não pode fugir. Mas, acima de qualquer outro aspecto, reflete as convicções do grupo de pessoas que lidera, diariamente testadas e desafiadas por um ambiente que não é apenas excessivamente competitivo, como também capaz de expor características que não deveriam causar orgulho a ninguém. Em muitos casos, infelizmente, é o que parece.

Nem uma hora após a confirmação do título, na madrugada de quinta-feira, o técnico do Corinthians ocupou seu lugar na sala de entrevistas de Itaquera com uma gigantesca oportunidade de se posicionar como campeão. Se suas declarações carregassem um tom irônico, arrogante ou talvez até combativo, muito seria relacionado à natureza do momento e, na maior parte, compreendido. Carille tomou o caminho oposto. Manteve-se sóbrio, contido e foi além: revelou que uma de suas maiores preocupações ao assumir o time era como se comunicaria em público, tarefa que escapava às habilidades que até então sustentavam sua trajetória no futebol. O desempenho de Carille ao microfone acompanhou boa parte da campanha do Corinthians no ano, com a diferença de que ele não “caiu de rendimento” quando a equipe o fez.

No período de maior pressão, quando o time jogava mal e a vantagem na pontuação encolhia a cada rodada do returno, não se pôde notar uma palavra temerosa ou qualquer intenção de desviar o assunto das entrevistas, tática utilizada por tantos treinadores que entendem o contato com repórteres como parte do jogo. É provável que os posicionamentos de Carille não expressassem o nível de urgência que setores da torcida e da mídia consideravam necessário, esquecendo-se que esse não é o trabalho dele. Sua postura sempre se pautou pela ponderação e nunca retribuiu deselegância, como, por exemplo, após a partida em que o Corinthians essencialmente ganhou o título, vencendo o Palmeiras em um encontro decidido pelas propostas de dois técnicos iniciantes.

Há um ditado em inglês que, em tradução literal, diz “aja como se você tivesse estado lá”. É uma forma de pedir que alguém, mesmo sem a experiência necessária para lidar com determinadas situações, exiba o comportamento dos que estão habituados a elas. Traduz compostura, seriedade, porte. Não é fácil. Foi assim que Fábio Carille se conduziu durante a primeira temporada de sua carreira como técnico de futebol. E isso é mais importante do que os troféus que ele ajudou a erguer.

TODOS EM PÉ

O julgamento de alguns donos do futebol sul-americano, em andamento em Nova York, renderia vários filmes sobre dinheiro, corrupção, paixão e traição. Todos se concentrariam no enredo de “thriller judicial” que toma conta de um tribunal americano nestes dias, com os mesmos traços de histórias mafiosas que o cinema já contou. José Maria Marin, no banco dos réus, e Marco Polo Del Nero, praticamente sendo julgado à distância, são personagens principais.



  • Anna Barros

    Belo texto. Esse título é de Fabio Carille. É a cara dele! E a alma é de Jô, o melhor jogador do campeonato.

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