Droga social 



Para que uma substância seja incluída na lista da Agência Mundial Anti-Doping (WADA), é necessário que se enquadre em ao menos dois dos seguintes cenários: elevar o desempenho esportivo; representar risco à saude do atleta; violar o espírito do esporte. Em relação à cocaína, cujo principal metabólito foi encontrado no exame de Paolo Guerrero, a ameaça à saúde é evidente, mas os demais critérios podem ser discutidos.

A cocaína aparece na relação de substâncias proibidas como um estimulante, em um contexto de ganho de performance. Embora não haja comprovação científica de que um atleta tem vantagem sobre outros quando sob efeito da droga (de fato, os indícios apontam no sentido oposto), agências como a WADA a tratam da mesma forma que a anfetamina, esta, sim, associada à melhora de rendimento em diversas modalidades esportivas.

Especialistas afirmam que o efeito estimulante da cocaína tem duração irrelevante para representar qualquer tipo de vantagem física para um jogador de futebol. A questão da “competição desleal” ficaria por conta da ação da droga no sistema nervoso central, provocando a sensação de euforia que, num campo absolutamente subjetivo, poderia gerar um bônus psicológico. Um atacante mediano, sentindo-se o Super Homem, seria capaz de jogar como Messi?

Resta claro que a “violação ao espírito esportivo” é um tema determinante. Trata-se de um exercício moral que leva em conta o papel de esportistas como “modelos de comportamento” e/ou representantes de atividades ligadas ao que se possa chamar de vida saudável. De maneira mais simples, um mau exemplo. Por outro lado, esse raciocínio não é considerado quando um atleta consagrado se torna garoto propaganda de uma marca de bebidas alcoólicas.

A cocaína é uma droga social. No passado, um tenista que testasse positivo para a substância, sem que estivesse disputando um torneio, não sofria qualquer punição. Se fosse flagrado em competição, como se deu em 2009 com o francês Richard Gasquet, uma longa suspensão se seguiria desde que não houvesse explicação convincente. Os beijos de uma dançarina chamada Pamela, durante uma noitada em Miami na véspera do exame, foram aceitos como possível causa da contaminação da urina de Gasquet, que ficou apenas dois meses banido.

Há ainda dois aspectos que não deveriam ser ignorados pelo sistema atual: a etiqueta de “viciado” que é colada em quem cometeu um erro de julgamento; e a violência das suspensões que impedem os dependentes de trabalhar, agravando seus dramas pessoais.



  • Ricardo Trevisan

    Foi como se estivesse relendo seu post na época do que aconteceu com o Jobson, não importa se são substâncias e circunstâncias diferentes, afastá-los das atividades nunca será positivo.

  • J.H

    O futebol é a vítima preferida em qualquer situação. Ver jogador movendo ações trabalhistas extorquindo clubes de futebol porque jogam aos domingos???? Equiparando-se ao regime de trabalhador comum pela CLT, dá vontade de chorar. E o uso da justiça não para por aí, agora até música cantada nos estádios por torcedores serve de propósito para extorquir os clubes reivindicando MILHÕES por direitos autorais. É mole? Pobre futebol.

  • Joey Ramone

    André, primeiro parabéns, como é regra, texto muito sensato. A seu ver, qual seria o melhor approach em casos de uso de droga social, no lugar de suspensão? Obrigatoriedade de se submeter a tratamento, talvez?

    • André Kfouri

      Obrigado. Tratamento obrigatório para seguir atuando, sem dúvida. Mas com acompanhamento psicológico e foco na recuperação, primeiro, da pessoa.

      • Joey Ramone

        Perfeito, obrigado e bom final de semana.

        • André Kfouri

          Eu que agradeço. Igualmente.

MaisRecentes

Vá estudar



Continue Lendo

Dilema



Continue Lendo

No banco



Continue Lendo