Imóvel



Em um artigo publicado ontem na versão eletrônica do diário britânico The Guardian, Jonathan Wilson apresentou uma questão interessante sobre a origem do futebol “negativo” proposto por José Mourinho. Wilson sugere que o “pragmatismo” que caracteriza o treinador português é um produto da incapacidade de alcançar o sucesso como jogador, relembrando um raciocínio escrito por Jorge Valdano em uma coluna de dez anos atrás: “Aqueles que não tiveram talento como jogadores não acreditam no talento dos jogadores, não acreditam na habilidade de improvisar para vencer jogos de futebol”. A ênfase em um sistema que prega o controle total de futebolistas, com desprezo pelo espetáculo, seria a reação vaidosa a uma carreira que não se desenvolveu.

“Se Mourinho não pôde ser um dos jogadores, ele poderia ao menos controlar os jogadores”, sugeriu Wilson. “Ele poderia criar uma estrutura que deixasse claro que tudo era a respeito dele, o jogador dos jogadores, e não sobre nenhum indivíduo no campo”. O artigo pondera que nem todos os técnicos que não tiveram sucesso na carreira anterior seguiram este caminho, Arrigo Sacchi sendo, talvez, o principal exemplo. Assim como vários jogadores muito bem sucedidos não se tornaram, obrigatoriamente, promotores de um futebol atraente. Wilson recorre a algumas comemorações de Mourinho que ficaram famosas, gestos como ajoelhar para celebrar um gol ou correr para dentro do gramado, apontando a semelhança com o que jogadores costumam fazer. Maneiras de combater a ideia de ser alguém estranho ao que acontece em campo.

Há um trecho do texto que remete a um personagem mais próximo: a lembrança de que Mourinho trata os contatos com repórteres como etapas das partidas. “Quando vou para a entrevista coletiva antes de um jogo, o jogo já começou”, disse ele, quando dirigia o Porto. “Quando vou para uma entrevista coletiva após um jogo, o jogo ainda não terminou. Ou, se já terminou, o próximo já começou”. Qual técnico brasileiro disse precisamente essas palavras e sempre se comportou de acordo? Exato, Vanderlei Luxemburgo. Embora possua um currículo superior como jogador (Mourinho não chegou perto de alcançar o equivalente a jogar em um clube como o Flamengo, no qual Luxemburgo passou a maior parte de sua carreira), não se pode dizer que Luxemburgo tenha sido um futebolista de destaque. Ambos compartilham a ausência de sucesso em campo, além da personalidade vaidosa.

Mas é na ideia de futebol que eles tomaram posições antagônicas enquanto técnicos, o que permite que Luxemburgo – a exemplo de Sacchi – seja mencionado entre os casos de jogadores opacos convertidos em proponentes de um jogo ofensivo e encantador em seus melhores dias. Um passado distante, a bem da verdade. A demissão do Sport, com aproveitamento sofrível em pouco tempo de trabalho, reforça a noção de que Luxemburgo estacionou em 2004 e o futebol o deixou para trás. É uma distância muito mais longa do que se poderia aceitar, especialmente para quem tem se notabilizado por declarações engraçadas sobre a linha do tempo do jogo. Desconectado do conteúdo, e, talvez, da genuína ambição para realizar trabalhos atualizados, o desejo de protagonismo não passa de uma fonte de frustrações.

A UM PASSO

Renato Portaluppi está às portas da final da Copa Libertadores da América com o Grêmio, de certa forma validando as decisões tomadas durante a temporada no que diz respeito à escolha de objetivos. Aqui se escreveu, e se mantém, que o equívoco foi colocar a Copa do Brasil acima do Campeonato Brasileiro, mas não se discute – entre quem faz o futebol diariamente, com conhecimento científico, a questão é muito clara – a necessidade de optar. Haverá, no entanto, quem só aceite o título como justificativa para a estratégia. São os mesmos especialistas de rede social que argumentam que “na NBA se joga todas as noites”.



  • Alisson Sbrana

    Olá AK. Passo aqui para agradecer as duas leituras seguidas. Os textos “Imóvel” e “Doente” são exemplos de como qualidade literária, informação jornalística e cultura esportiva podem conviver harmonicamente num campo tão devastado que tem sido o da nossa imprensa. Obrigado.

    • André Kfouri

      Como sempre, quem agradece aqui sou eu. Um abraço.

  • J.H

    O único blog de esportes, além do oficial do Corinthians no G1, que acompanho pela qualidade dos comentários. Também agradeço.

  • Gustavo

    A crítica de Jonathan Wilson parece um mecanismo de defesa do ego chamado projeção.

    Ao falar “Se Mourinho não pôde ser um dos jogadores, ele poderia ao menos controlar os jogadores”, parece falar de si mesmo. A postura de crítico de técnicos é uma forma de se colocar acima deles. O amargor de sua crítica sugere um passado de jogador/técnico frustrado, que resolveu ser jornalista esportivo para lidar com essa frustração.

    Sem querer, o jornalista parece ressentir não ter sido capaz de ser um Mourinho, um dos treinadores europeus mais vitoriosos de todos os tempos.

    • André Kfouri

      Poucas vezes vi uma interpretação tão distante do sentido do que está escrito.

      • Gustavo

        AK, então vou te explicar de forma mais singela: Wilson fez uma crítica e eu falei que a crítica dele não passa de recalque. Entendeu agora?

        • André Kfouri

          Pare com o nonsense.

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