Doente



Pat Riley, técnico do Los Angeles Lakers da época do “showtime” (a década de 1980 lhe parece muito longe?), tem um método pessoal para identificar os diferentes estágios pelos quais passam muitos times bem sucedidos. A inocência que vem antes do sucesso, caracterizada pelo senso de colaboração e sacrifício que possibilita o alcance de objetivos coletivos. E a atenção que cresce à medida que se vence, corroendo as alianças internas e cultivando insatisfações alimentadas por egos e avaliações equivocadas da importância de cada um.

Riley batizou o primeiro momento de “escalada inocente” e o segundo de “doença do eu”. Etapas de uma trajetória que quase sempre se verifica, alteração de rota da qual nenhuma equipe está livre. É importante frisar que ele se refere a times que são campeões e não conseguem evitar os danos que a coroa causa individualmente, destruindo os pilares que sustentaram a caminhada vitoriosa. O diagnóstico passa, portanto, pelos efeitos da conquista de um título. Não há como saber se o ex-jogador e técnico lendário na NBA (cinco troféus) possui qualquer informação sobre a campanha do Corinthians neste Campeonato Brasileiro. Se tivesse, ele diria que o raciocínio também vale para times que não ganharam nada.

Porque a questão principal é a forma como jogadores se percebem, e, no caso de um mal contagioso, como uma equipe se enxerga coletivamente. Só há uma coisa pior do que a deterioração de um conjunto vencedor por personalidades infladas e o súbito esquecimento do que o fez, por um momento, forte: a deterioração de um conjunto que se julgou vencedor antes de sê-lo. Do primeiro para o segundo turno do campeonato, o Corinthians oferece sinais da antecipação dos sintomas identificados por Pat Riley, não por se contentar com o aproveitamento irreal da primeira parte, mas por imaginar que a segunda era uma garantia. Nota-se no comportamento do time uma desmobilização tão dramática que custa crer que são os mesmos jogadores.

Existem explicações para o declínio do líder em vários aspectos do jogo de futebol. São todas reais e exercem papéis importantes no desempenho irreconhecível em quase todas as partidas do returno. Mas, se a leitura de alguém como Riley está correta (não é fácil construir um argumento contrário), são sintomas decorrentes de uma drástica – e precoce – alteração de percepção. Antes de jogadores, equipes são formadas por pessoas, e cada pessoa é um organismo propenso à “doença do eu”. Só há um atenuante: a precocidade traz tempo, e o tempo é sempre uma oportunidade.



  • Ricardo Trevisan

    Assim como não é fácil construir um argumento contrário (não perderia meu tempo), muito facilmente transportamos essa constatação pra qualquer área do nosso dia a dia, pra um desempenho de qualquer equipe em qualquer empresa, pro nosso desempenho e satisfação pessoal com aquilo que fazemos e vivemos todos os dias. Jamais será só um jogo.

  • Paulo Pinheiro

    Desculpe, André, a interferência totalmente off-topic. Mas quis desabafar aqui pra também ter a sua opinião. Será que ficou proibido expulsar jogadores por entradas criminosas em jogadores do Flamengo?
    Ano passado foi o Fagner sobre o Ederson. No começo deste ano foi o zagueiro do Atlético-PR sobre o Diego. Semana passada quebraram o Berrío e ontem foi a vez do Réver. NENHUM dos botinudos foi expulso. No máximo o Marco Júnior ontem tomou um mísero amarelinho.
    Começo a pensar que a pressão que se faz da “teoria da conspiração” de que o Flamengo é “protegido” pra lá e pra cá estão fazendo um mal enorme na cabeça de árbitros sem a menor personalidade. Não é possível! Vão esperar quebrar o elenco todo pra alguém tomar uma atitude?

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