Incoerente



Embora um universo de trinta e quatro jogos seja insuficiente para avaliar um time de futebol e todos os aspectos do trabalho de um treinador, uma coisa Cuca não foi capaz de fazer: salvar a temporada do Palmeiras dos riscos que as pessoas que tomam decisões no clube identificaram nos primeiros dias de maio, quando resolveram demitir Eduardo Baptista após vinte e três partidas. Mesmo a caminho de classificar o time para as oitavas de final da Copa Libertadores, Baptista foi considerado inapto para conduzir o planejamento do Palmeiras aos objetivos do ano. Faltava-lhe estofo. O campeão brasileiro de 2016 foi trazido de volta e apresentado como a solução para problemas imaginários.

À época, neste espaço, o desvio de rota futebolística que o Palmeiras tomava foi abordado, com ênfase nas incompatibilidades entre o tipo de jogo pregado por Cuca e o que o elenco foi montado para praticar. Felipe Melo e Miguel Borja terminaram enquadrados como os rostos da questão, mas é possível que Alejandro Guerra tenha sido a principal vítima da decisão tomada pela diretoria. O meia trazido para exercer um papel central em um time de construção se viu, a partir da troca no comando, obrigado a se adaptar a outra linguagem de futebol. Seu declínio é produto de um erro cometido dois andares acima dele, pelas mesmas pessoas que o contrataram com uma visão de equipe e suspeitaram que alterar a visão, com a mesma equipe, era uma ideia inteligente. Obviamente não era.

O resultado: o técnico que resolveria os problemas que o Palmeiras não tinha não completará o Campeonato Brasileiro, medida anunciada, em nome do “planejamento de 2018”, por quem rasgou o planejamento de 2017 após três meses. A confusão é de tal ordem que a saída de Cuca, em si, não é um despropósito a partir do momento em que não há mais objetivos ao alcance e se pretende outro técnico para o ano que vem. Mas não se pode ignorar o que levou o Palmeiras a esta situação durante uma temporada em que havia tanto a conquistar e se fez tanto investimento. A sensação de desperdício, não só dos recursos, é bem pior do que a da derrota.

Não, o Palmeiras não dava exibições de futebol quando o trabalho de Eduardo Baptista foi interrompido. E nunca se saberá como seria o ano de 2017 se ele tivesse recebido os suportes necessários a alguém em sua posição, formando um novo time sob máxima exigência. É possível que, na metade de outubro e sem nada para mostrar, a diretoria entendesse que o melhor caminho era dispensar Baptista e tratar do futuro. Ao menos seria uma decisão bem informada, coerente, após uma temporada de convivência e com parâmetros claros de avaliação sobre o desempenho do time, do técnico e de cada jogador. O Palmeiras perdeu essa oportunidade em maio, e nada andou bem desde então.

Quanto a Cuca, talvez seja o momento propício para o descobrimento de um mundo de futebol que não faz parte de seu dia a dia. Mesmo em um ambiente que comete o pecado supremo de rejeitar o conhecimento, Tite mostrou que treinadores estabelecidos e financeiramente confortáveis podem – devem? – reservar tempo para avançar na profissão. O jogo de futebol está em constante transformação, em ciclos cada vez mais curtos que precisam ser acompanhados por aqueles que pretendem se manter, no melhor dos sentidos, em evidência.

MOEDOR

Na temporada, Argel Fucks, Ney Franco, Roger Machado, Marcelo Cabo, Milton Mendes e Cuca foram demitidos após enfrentarem o Bahia. Cuca foi o único que não perdeu.

SEM PRESSA

Mano Menezes deve se reunir com a diretoria do Cruzeiro no início da semana que vem, para tratar de sua permanência ou não no clube mineiro. A renovação do contrato não está relacionada ao interesse do Palmeiras ou de outro(s) clube(s). De qualquer maneira, não haverá novidades durante o fim de semana.



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