Sozinho



A última partida oficial em que um jogador que não se chama Lionel Messi marcou um gol pela Argentina aconteceu há quase um ano. Foi em dezesseis de novembro de 2016, quando a Colômbia foi derrotada por 3 x 0, pela décima-segunda rodada das Eliminatórias. Lucas Pratto e Angel Di Maria aparecem na súmula como autores do segundo e terceiro gols, respectivamente. Messi inaugurou o marcador em cobrança de falta e fez duas assistências, mas esses são detalhes que se perdem dependendo da forma como se analisa o desempenho do melhor jogador do mundo com a camisa de seu país.

Há um gol argentino anotado no mês passado, no empate em 1 x 1 com a Venezuela, sem participação de Messi. Mas foi contra, cortesia do defensor Rolf Feltscher, ilustração ainda mais clara do tamanho do desequilíbrio que Messi representa. Quando a Argentina faz um gol que não é dele, trata-se de uma infelicidade do adversário. Com três treinadores na mesma campanha, um futebol com os jogadores que a Argentina possui não foi capaz de produzir uma equipe ao redor de um gênio. A não ser que a pérola de Dybala (“é difícil jogar com Messi”) seja a expressão de uma verdade aterrorizante, algo está muito errado.

Ver Messi jogando por sua seleção exige capacidade de compreender o futebol e, especialmente para argentinos e brasileiros, capacidade de admirar um futebolista sem similares. Uma coisa está intimamente ligada à outra, já que a falha ao captar a grandiosidade do 10 argentino é sintoma claro de uma relação fraturada com o jogo que ele pratica. No Brasil, esse tipo incurável de miopia quase sempre está relacionado ao que se julga ser rivalidade, mas é ódio com outro nome. O que de certa forma explica a derrota humilhante e definitiva de quem pensa que gosta de futebol, mas desgosta de Messi.

Até Jorge Sampaoli, um apaixonado declarado, se deixou levar pela insanidade em que o futebol argentino está submerso (embora seja difícil crer, a AFA provavelmente converte a CBF em uma instituição exemplar). O treinador encarregado de não permitir que a Copa do Mundo escapasse declarou que sua conversa com o time, antes de enfrentar o Equador, teve a mensagem para que “todos levassem Messi ao Mundial”. Em campo, na altitude, e perdendo desde o primeiro minuto, o que se viu foi o inverso: Messi levando seu país à Rússia. O caso é tão grave que talvez ele seja o único jogador argentino que mereça estar no avião, mas – e isso os curiosos jamais entenderão – o futebol pertence às equipes.



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