O czar preso



O reinado de Carlos Arthur Nuzman, por um motivo ou outro, já estava no epílogo. A prisão – temporária, preventiva, ou simplesmente a imagem de sua condução a um prédio da Polícia Federal – do czar do esporte olímpico brasileiro é importante, simbólica, pela mensagem que envia aos súditos e pela possibilidade de alimentação das investigações a respeito de outras figuras. É fundamental não esquecer que a conduta do político do esporte nacional é baseada em um modelo replicado de cima para baixo, como gremlins em contato com a água. Há aprendizes de Nuzman com tempo, método e intenção de preservar esse modelo, pois ele permite uma vida pilhando o esporte sob o disfarce dos serviços prestados e a farsa da abnegação. Só haverá avanço se os mini-nuzmans forem detidos e a estrutura for modernizada.

Não fosse este o Brasil, a carta de renúncia de Nuzman já estaria entregue e muitos de seus colaboradores diretos no Comitê Olímpico Brasileiro teriam acompanhado o cartola encarcerado, com declarações de lisura, confiança na inocência do chefão, amor à pátria e etc, mas ansiosos pela retomada de suas rotinas particulares, carreiras paralelas, quem sabe à procura daquele diploma universitário que remete a uma formação profissional há tempos esquecida. É evidente que há pessoas honestas e honradas em uma organização como o COB. Assim como no COI, na Fifa, na Conmebol, na CBF, nas federações… são aquelas pessoas que, embora sintam o impacto de operações como a “Unfair Play”, provavelmente se encontram aliviadas. E não enfrentam problemas para dormir, ao contrário dos espertos que, desde a primeira visita da PF à casa de Nuzman, imaginam há quanto tempo estão sendo monitorados.

Calcule. Se até o ilustre Nuzman assinou a confissão de retificar sua declaração de imposto de renda após o depoimento no início de setembro, incluindo as barras de ouro guardadas em um cofre na Suíça, o que não fizeram os integrantes menos dotados de sua turma? Quantos equívocos, talvez tão graves quanto tentativa de obstrução de Justiça, teriam cometido sob a pressão da investigação e a impressão de que conseguiriam se esconder? Aquele serviçal que, desde a realização dos Jogos Panamericanos de 2007, vivia às gargalhadas se arriscando em inconfidências sobre as operações do COB, estaria rindo agora? O tamanho da operação que prendeu Nuzman e Leonardo Gryner interessa tanto a quem está ansioso por seus efeitos quanto a quem os teme. E entre os que vestiam com orgulho o terno do comitê e ajudavam Nuzman a sujar as mãos, não devem ser poucos.

Ainda que pareçam duras, as sanções do Comitê Olímpico Internacional – suspensão de Nuzman e do COB – apenas mostram a família olímpica, irritada, distanciando-se de um membro que se colocou em posição prejudicial “ao sobrenome”. Não pelo que fez, mas por ter sido pego. O comunicado da entidade com sede em Lausanne ressalta o interesse na investigação, “a fim de proteger sua reputação como organização”. O efeito prático principal é o corte da mesada. No aspecto esportivo, nada se altera, e esse é o problema maior. Mesmo que a Polícia Federal alcance todos os envolvidos e os retire do cenário, só uma estrutura diferente de poder e administração fará com que a prisão do czar signifique um novo momento.

RECORDAR…

É desagradável, mas obrigatória, a lembrança de que muitos alertas foram feitos antes e depois da escolha do Rio de Janeiro para ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Fez-se pouco de argumentos que chamavam a atenção exatamente para o risco de esquemas como os que agora estão expostos, encabeçados por políticos profissionais e esportivos, que se aproveitaram das obras e dos serviços relacionados à Olimpíada. A empolgação com a proximidade do evento dispensou esses alertas, desqualificando-os como manifestações antipatriotas ou bairristas. Um equívoco explicado, talvez, pela vontade de ser enganado.



  • Gregório Unbehaun Leal da Silv

    Vontade de ser enganado é igual o rouba mas faz

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