Posse 



Em uma entrevista coletiva recente, Juan Manuel Lillo comentava as qualidades defensivas de seu time, o Atlético Nacional de Medellín, quando disse uma dessas frases conceituais que elevam o valor de conversas com treinadores de futebol: “Recuperar a bola é tirá-la de um [adversário] e dá-la a outro [companheiro], com vantagem. Até que isso aconteça, a bola não foi recuperada”. É lógica a conclusão de que, se a bola não foi recuperada, a posse não se iniciou, uma questão central nos debates sobre formas de jogar futebol.

Já se avançou suficientemente no assunto para que esteja claro que a posse é uma ferramenta, não um objetivo. Exceto em situações muito específicas, a simples conservação da bola não aproxima um time da vitória, de onde se origina a ideia de que o importante é o uso da posse. Lillo, um dos intérpretes do “jogo de posição” consagrado no Barcelona, oferece uma informação crucial para este sentido de utilização. As duas palavras mais relevantes da declaração mencionada acima são “com vantagem”.

De maneira simplificada, a essência do “jogo de posição” é a geração de superioridades em certas áreas do campo, com o estabelecimento dessas “vantagens”. O conceito de “superioridade numérica”, por óbvio, consiste em ter mais jogadores do que o adversário em uma determinada situação. Mas é possível ter vantagem mesmo em inferioridade de jogadores. A “superioridade posicional” se dá, por exemplo, quando dois zagueiros observam o jogador que vai cruzar a bola, sem a devida atenção ao atacante situado entre eles, em posição privilegiada para finalizar.

Há outros tipos, como a “superioridade temporal” (quando um jogador de ataque sabe onde receberá a bola de um companheiro, antes que os adversários percebam), ou a “qualitativa” (situação de um contra um, em que o atacante é mais capaz do que o defensor), que não se definem pelo número de futebolistas envolvidos na jogada, mas podem estabelecer a “vantagem” destacada por Lillo. Outros treinadores que propõem o “jogo de posição” só consideram que um time tem posse após dar ao menos três passes, o que nos leva a um momento aparentemente contraditório: é possível ter a bola, mas não ter a posse.

A entrega da bola a um companheiro “com vantagem” supõe o início de um movimento em que superioridades são procuradas continuamente, por intermédio de posicionamento e circulação, até chegar ao gol do oponente. É fundamental compreender essa dinâmica – mais importante do que percentuais ou cronometragens – para avaliar equipes que jogam “com posse”.



  • Ricardo Trevisan

    E pensar que nós nos imaginamos conhecedores de futebol, arte ainda por cima.

  • Edouard

    Pense em quão valioso é um jogador capaz de compreender esses conceitos para aplicá-los intuitivamente durante o jogo, inclusive em cenários de improvisação.
    Acho que esses conceitos que você menciona valem para o que vi no jogo dos Atléticos no último final de semana. Achei bastante interessante o movimento que o atacante Fred fez no segundo gol de Robinho, atraindo a marcação para uma região do campo que os afastava do espaço onde apareceu o jogador que fez o gol. Estatísticas não mostram esse tipo de virtude de modo claro. O movimento foi fundamental porque a ocupação, em diagonal, do lado direito do ataque abriu um rombo na cobertura do lado esquerdo. Um abraço.

  • Soma Zero FC

    Sobre as estatísticas de posse de bola no brasileirão e nos principais campeonatos europeus:

    https://somazerofc.com/2017/10/03/a-posse-de-bola-revisitada-ou-como-parar-de-se-preocupar-e-voltar-a-amar-a-bola-nos-pes/

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