O vício da culpa



Quando a disputa de pênaltis que decidiria o título da Copa do Brasil estava para começar, na noite de quarta-feira, a primeira pessoa responsabilizada pelo fracasso da temporada do Flamengo provavelmente olhava para a tela da televisão com um interesse distanciado no desfecho das cobranças. Seria natural que Zé Ricardo torcesse pelos amigos que deixou no clube em que trabalhou por tanto tempo, assim como censurá-lo por estar mais preocupado com seus objetivos atuais é injusto. Fato é que outro profissional ocupava sua posição, a minutos de uma frustração que obviamente teria repercussões. A exemplo do Coronel Fábio, em “Tropa de Elite”, o problema não era mais do técnico que hoje dirige o Vasco.

O segundo culpado por um ano desperdiçado estava em campo, no círculo central, ao lado dos companheiros. Alguns já lidavam com o pacote psicológico-técnico da longa caminhada até a grande área para colocar a bola na marca e chutá-la na direção do gol, única situação no jogo de futebol para a qual não existe preparação possível. Márcio Araújo sabia que, exceto no caso da noite se tornar inacreditavelmente longa, tal responsabilidade não pesaria sobre seus ombros. Após assistir a todo o encontro entre os jogadores suplentes do Flamengo, o papel do volante criticado em doses muito além das aceitáveis permanecia o mesmo: apenas torcer.

Outros dois escolhidos para suportar o que deveria ser compartilhado por todos também estavam no gramado do Mineirão, envolvidos diretamente no balanço imprevisível desse tipo de decisão. Um deles seria o autor da terceira cobrança pelo Flamengo. O outro teria ao menos cinco chances para se fazer notar diante dos batedores cruzeirenses. Ambos entrariam pela madrugada processando, cada um a seu modo, os elementos que convertem jogadores que não vencem em párias, vítimas de um julgamento imaturo que projeta neles a satisfação da vaidade alheia. Fábio negou a Diego o único destino que se permite a futebolistas contratados para “fazer diferença”. Todos os pênaltis cobrados pelos mineiros encontraram a rede que Muralha tinha a obrigação de defender com a própria vida.

A noção de que um jogador de futebol deve ser incriminado por uma derrota é tão infantil quanto a tese de que existem vitórias individuais neste jogo. Falhar em compreender as complexidades coletivas que levam a resultados de partidas e competições é se contentar com um dos níveis mais miseráveis de ignorância. O futebol é um confronto de equipes, que, como tais, escrevem seus caminhos de acordo com os próprios comportamentos. A análise deve ser ainda mais sóbria quando se trata de disputas de pênaltis, em que caprichos como um palmo ou um escorregão determinam distâncias gigantescas. Mas essa é a era do desconhecimento, em que opiniões descompromissadas fingem tratar de um esporte que, de perto, é completamente diferente do que se imagina. A discussão precisa se aproximar do que acontece de fato, sob pena de se tornar irrelevante.

CHANCELA

A frase de Mano Menezes após a conquista do Cruzeiro ilustra os problemas de entendimento de futebol que devem ser superados: “A gente precisa coroar o trabalho com um título, se não as pessoas pensam que estamos velhos”. Título é validação de trabalho. Ausência de título não significa, necessariamente, ausência de trabalho.

DISTÂNCIA

Carlo Ancelotti foi o quarto técnico demitido pelo Bayern de Munique, durante a temporada, nos últimos vinte anos. Há quem consiga enxergar o tradicional resultadismo brasileiro na decisão do clube alemão, um equívoco estatístico mesmo sem considerar todos os aspectos de trabalho, ambiente e elenco em questão. De repente, o cinismo foi capaz de notar, em um clube que acredita em formação de grupo e tempo de amadurecimento de equipe, um tipo de administração semelhante ao que tem caracterizado o Atlético Mineiro.



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