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Em um evento sobre gestão esportiva, na última quarta-feira, em São Paulo, o secretário-geral da CBF teve a ousadia de defender Marco Polo Del Nero durante um debate cujos temas eram a integridade e a transparência nas práticas de entidades ligadas ao esporte. Quem esteve no “Seminário Nacional do Esporte” pode ter ficado com a impressão de que o presidente da CBF é uma espécie de mártir das cartolas do futebol brasileiro, uma vítima de perseguição internacional que deve ser aplaudida por conduzir a confederação com o mais alto nível de responsabilidade. Não era a intenção dos organizadores, claro, mas a participação de Walter Feldman ofereceu uma experiência de realidade virtual, com uma releitura do que se sabe a respeito de Del Nero.

É difícil selecionar as pérolas mais valiosas proferidas por Feldman no encontro realizado pelo Lide Esporte e Atletas pelo Brasil (as aspas mencionadas pela coluna estão na reportagem de Bruno Grossi, do portal Uol). Talvez mereça maior destaque a tentativa de minimizar o processo que Del Nero enfrenta na Justiça dos Estados Unidos: “Sim, [o presidente da CBF] sofre um processo de investigação de uma agência chamada FBI”, admitiu. Atenção ao uso de “uma agência…”. É inacreditável que o secretário pretenda qualificar a polícia federal americana como um organismo que não justifica maiores preocupações, como uma associação de bairro. É por consequência do trabalho do FBI que ex-dirigentes de futebol lidam com restrições de liberdade desde a operação no Baur au Lac, no final de maio de 2015.

Colegas estão em situação mais penosa, é fato, mas o próprio Del Nero teve de ajustar sua rotina às repercussões do chamado “escândalo Fifa”. Embora seu passaporte não tenha sido confiscado, o efeito prático é o mesmo. O presidente da CBF não embarca em um avião com destino internacional porque sabe quais serão as implicações. Uma vez mais, nota-se o esforço de Feldman: “Por isso ele não viaja, por pura orientação dos advogados, para evitar constrangimentos”. Que sensacional peça de ficção. Para “evitar constrangimentos”, é possível que as irmãs Kardashian deixem de ir a um local público, por exemplo. Del Nero não vai ao exterior porque será preso. Não se trata de uma opção, ou zelo exagerado, mas de uma situação imposta pela investigação de corrupção no futebol feita pelo Departamento de Justiça dos EUA.

O que impede que Del Nero saia do país para uma simples viagem turística e represente os interesses do futebol brasileiro em jogos da Seleção ou reuniões da Conmebol e da Fifa, como exige o cargo que ocupa (importante lembrar que Carlos Arthur Nuzman, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro que possui passaporte russo, também está impossibilitado de passar por nossas fronteiras). Feldman sugere que seu chefe não tem conhecimento das acusações que pesam contra ele e não pode contra-argumentar: “Não temos maiores informações e, logo, possibilidade de defesa. (…) É apenas uma dificuldade de formular uma defesa por sua inocência sem saber do que ele é julgado”. Não, não é apenas isso. A dificuldade é tratar do assunto com franqueza.

Eis um trecho de um documento que se tornou público há dois meses: “O governo vai provar que, assim como Marin, outros dirigentes de futebol – incluindo Teixeira e Del Nero – receberam propinas relacionadas à compra e à venda de direitos de transmissão e de marketing da Copa do Brasil”. Como revelou o repórter Martín Fernandez, do Globoesporte.com, à época, a peça dos promotores americanos tem quarenta páginas e informa que provas serão apresentadas durante o julgamento de José Maria Marin, no início de novembro, em Nova York. As informações podem servir como ponto de partida para a defesa de Del Nero, a não ser que, resultantes da investigação de “uma agência chamada FBI”, não mereçam consideração.



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