Contágio



A verdade inescapável sobre o jogo de ida da final da Copa do Brasil é, como na maioria das vezes, incômoda: estivesse em uso o árbitro de vídeo no Maracanã anteontem à noite, o gol do Flamengo não seria validado. Simples, indiscutível e grave. Após o desvio de Willian Arão, Lucas Paquetá está impedido com clareza cristalina. Gol irregular em uma decisão, parabéns. Deve-se lamentar não apenas o ocorrido, mas tudo o que não é feito para evitar esse tipo de atrocidade no futebol de hoje, exposto a um constrangimento, no caso do Brasil, quase tão ridículo quanto o aparecimento de torcedores que adquiriram ingressos falsos em pleno ano de 2017.

É comum o argumento que prefere culpar a qualidade da arbitragem a aceitar a urgência do apito eletrônico. O sujeito se utiliza do replay de vídeo – disponível a toda a Via Láctea, menos a quem tem de decidir no ato – para, descaradamente, dizer que “o impedimento foi tão claro que nem é preciso usar a tecnologia, é um erro inexplicável”. Não, Einstein, o tamanho do equívoco não pode ser usado para desprezar a solução, o caminho é o oposto. E no exemplo do gol de Paquetá, importante salientar, a situação é diferente: a arbitragem humana não tem a menor chance em lances como esse, que lembram o que ocorre com a bola nas antigas máquinas de fliperama.

Há também o apelo ao resultado para minimizar a relevância do absurdo. O Cruzeiro empatou, 1 x 1 é como se fosse 0 x 0, então está tudo ok. Não, não está. O jogo poderia ter tomado outro rumo após a abertura do placar, levando a um desfecho em que o impacto do erro seria amplificado. O que o gol de De Arrascaeta fez foi salvar o confronto de um placar contaminado em sua primeira metade, um cenário horrendo. Felizmente não aconteceu, por nada mais do que sorte. E o pior é que o flerte com o perigo não bastará para que providências sejam tomadas o quanto antes. Prefere-se seguir convivendo com o risco e administrando as suspeitas que erodem a relação do público com o futebol.

Os testes com o sistema do árbitro assistente de vídeo indicam que é necessário diminuir ao máximo sua interferência no fluxo do jogo. Na Liga Italiana, em que a tecnologia está em utilização nesta temporada, uma crítica de Gianluigi Buffon gerou repercussão internacional: “Não é futebol, é polo aquático”, reclamou. Ele se referiu às constantes paralisações (não há VAR no polo) nas partidas, não ao uso do vídeo para corrigir erros e tornar o esporte mais justo. “É algo que, usado com moderação, pode nos dar excelentes resultados e ser uma coisa boa para o futebol”, completou o ídolo na mesma entrevista, em uma declaração menos comentada, embora seja igualmente útil ao debate.

O tipo de ocorrência sujeita à revisão também é uma questão fundamental. Neste âmbito, não deveria haver discussão sobre lances como o gol de Lucas Paquetá, que provocam a sensação desagradável dos produtos com defeito e a esperança de que o jogo encontre, por conta própria, o remédio para neutralizar o dano. A partida de ida da final da Copa do Brasil encontrou, e é só por isso que o título do torneio dependerá unicamente do que Cruzeiro e Flamengo fizerem em campo no dia 27. Desde que, é claro, nada semelhante aconteça no Mineirão.

EXAME

O Corinthians não deve querer recuperar, na Vila Belmiro, os pontos que deixou escapar em casa em duas atuações que não foram tão ruins quanto os resultados sugerem. Além de uma impossibilidade matemática, seria um erro estratégico. O maior desafio para as equipes que constroem vantagem na classificação é seguir trabalhando, com base no planejamento de pontos pré-determinado, como se a folga não existisse. No momento em que se começa a pensar na diferença para os perseguidores, deixa-se de pensar no que a permitiu e uma porta se abre para a doença da dúvida. Não é fácil, assim como não é fácil jogar em Santos.



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