Entrevista



Até as primeiras horas da manhã de anteontem, quem estivesse interessado em entrevistar Carlos Arthur Nuzman era obrigado a cumprir o protocolo corriqueiro para esse tipo de ocasião. Dirigentes que se comportam como políticos do esporte – o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro é um modelo dessa figura – se protegem da opinião pública atrás de estruturas destinadas a fazer, digamos, uma curadoria da mensagem a ser transmitida. Nada anormal.

Superado o processo de agendamento, jornalistas dispostos a tratar de temas importantes devem estar preparados para encontrar até quatro funcionários do COB na sala, não apenas para acompanhar a conversa, mas para gravá-la em seus aparelhos celulares. Esse diligente aparato foi utilizado em uma recente entrevista para um canal de televisão, provavelmente porque um dos assuntos adiantados pela reportagem era a corrupção. Nem Jérôme Walcke, ex-secretário-geral da Fifa de Joseph Blatter, tinha o hábito de gravar seus encontros com repórteres.

Na entrevista mencionada, Nuzman olhou para seus colaboradores antes de responder – ou maquiar a resposta – a todas as perguntas relacionadas a temas sensíveis, como que esperando um ok para elaborar sua declaração ou evitar a questão. O clima na sala era de desconforto, indisfarçável no gestual e na expressão do dirigente, comportamento frequente quando o czar do esporte olímpico brasileiro se vê diante de alguém que, de fato, o questiona de forma compatível com a posição que ocupa.

Importante ressaltar que ninguém, nem mesmo o presidente do comitê organizador de uma edição dos Jogos Olímpicos, tem a obrigação de dar entrevistas. Exceto, é claro, quando o encontro é solicitado pela Polícia Federal. Nesse caso, o protocolo de agendamento é diferente: envolve uma visita surpresa bem cedo, a dificuldade de se concentrar na leitura de um mandado de busca e apreensão em um horário como esse, e, após evento tão desconcertante, ser encaminhado ao local determinado pelas autoridades. Dentro da sala, ao invés de assessores obedientes, advogados. Dramático.

Mas ainda não chegou a hora em que Nuzman teve de falar sobre a Olimpíada de 2016 e o legado que o delegado quer ouvir. Como se sabe, e talvez como prefira fazer em entrevistas “convencionais”, o presidente do COB se manteve em silêncio durante o depoimento na superintendência da PF no Rio de Janeiro. O Brasil é tão grande e acolhedor que, apesar da agenda desagradável, Nuzman ainda pôde se considerar um homem de sorte ao celebrar uma derrota: no mesmo dia, um político profissional o superou em dinheiro apreendido. Em cem vezes.



  • Klaus P.

    De legado em entrevista a delegado entre os vistos.

    Evolução.

MaisRecentes

A vida anda rápido



Continue Lendo

Renovado



Continue Lendo

Troféu



Continue Lendo